Conservadores. Uma minoria ou um disfarce para a destruição.

 

A humanidade se move em ondas. A cada vitória ou consolidação de uma determinada ideologia, padrão de comportamento, sistema político, ou mesmo econômico, corresponde simultaneamente ao nascimento de uma força contraria e resistente. E quanto mais extrema é a força para uma determinada direção, maior é o antagonismo do seu contrario. É quase físico, material, este comportamento que, em um primeiro momento, parece carregado de subjetividades.

Este pressuposto contamina o macro e o micro mundo onde habitamos. Vai dos sistemas que determinam a vida das nações ao tipo de comportamento na convivência entre familiares ou vizinhos.

Em nossa história recente observamos momentos com mais ou menos radicalismos, períodos de convivência que se alternam entre tranquilos e muito violentos, em função de algumas regras impostas as quais chamamos “civilizatórias”. Esta alternância nos humores também se dá porque, logo após grandes barbáries que não têm sido raras, um ou mais de um, dos contendores está completamente satisfeito pelo sangue e pelas lágrimas dos adversários. Aí uma espécie de hibernação espiritual se impõe para que a violência seja digerida.

Estamos acompanhando mais uma destas ondas acontecendo. O discurso conservador está saindo das sombras de sua vergonha, se esgueirando por diversas áreas do conhecimento humano, nas artes, na política e na religião. E por que eu chamo de vergonha? Porque este conservadorismo tem ainda tatuado em sua pele as atitudes covardes contra os negros indefesos no sul dos Estados Unidos. Com sua perversa manifestação mais recente em Charlottesville. O conservadorismo tem gravado na sua alma a dor infligida a milhares de mortos civis nos covardes atos terroristas ao redor do mundo. Esse mesmo conservadorismo que mata apenas para dominar, como nos grandes movimentos ideológicos, seja o Nazismo, o Fascismo, ou mesmo algumas das maiores experiências comunistas, onde a tirania superou a utopia.

Hoje estes conservadores se colocam como minorias que desejam ter também sua voz respeitada. Mas a pergunta que faço é: por que neste momento em que desejam ser ouvidos e respeitados a primeira coisa que entendemos em suas vozes é o desejo de destruir outras minorias?

O que permite definitivamente a coexistência entre os diferentes é a tolerância. A tolerância não pertence com exclusividade a nenhum grupos ou qualquer indivíduo em determinada posição no planeta. O respeito, a hospitalidade, a compreensão, são crenças intimas que não sucumbem nem mesmo à agressão. Trata-se de um sentimento silencioso que permite a uma mulher ou homem, mesmo não concordando com uma ideia ou atitude alheia, a respeite, sem querer destruí-la.

Na ideia de guerra não há lugar para vitórias. Mas existe sim uma luta saudável: aquela que abre espaços para que todos tenham voz.

Não consigo ver estas características no discurso conservador. Não encontro tolerância ou respeito por pessoas que pensam diferente. Não me parece que queiram ter voz, mas ao contrário, desejam calar os outros.

Felizmente não percebo força no discurso conservador, ele é vazio, é apenas reativo, ainda tem o medo como aliado. Me parece que as novas gerações estão mais dispostas a compartilhar do que dividir. Os frutos tardios do iluminismo, os conceitos das revoluções libertárias, a livre expressão das ideias independente de castas, tudo isso foi longe demais para retroagir. O discurso conservador não possui hoje um terreno fértil para florecer.

Se os conservadores desejam um lugar no futuro, devem construi-los sem desejar destruir os demais, se isso é um paradoxo insolúvel, eles irão desaparecer lentamente, mas sem dúvida seu rastro de sangue ficará. No futuro não há lugar para o ódio conservador.

Em 1889, como se imaginava os anos 2000?

Imagens que nos colocam na situação privilegiada de olhar do passado para o futuro estando e vivendo neste futuro…

Farofa Filosófica

As ilustrações de Jean-Marc Côté foram feitas na França entre os anos de 1889 a 1910, originalmente para estamparem caixas de cigarros, mais tarde, viraram cartões postais. O interessante desta série é que ela revela um pouco do imaginário daquele período (final do século XIX) sobre o “longínquo” século XXI. . Devido às dificuldades financeiras, os cartões de Jean-Marc Côté nunca foram realmente distribuídos e só vieram à luz muitos anos depois, depois que o autor de ficção científica Isaac Asimov os publicou em 1986.

800px-France_in_XXI_Century._Air_battle800px-France_in_XXI_Century._Air_cab800px-France_in_XXI_Century._Air_postman800px-France_in_XXI_Century._Barber800px-France_in_XXI_Century._Divers800px-France_in_XXI_Century._Electric_scrubbing800px-France_in_XXI_Century._Fishing800px-France_in_XXI_Century._Flying_police800px-France_in_XXI_Century._Helicopter800px-France_in_XXI_Century._Intencive_breeding800px-France_in_XXI_Century._Little_robbers800px-France_in_XXI_Century._Robot_orchestra800px-France_in_XXI_Century._Rolling_house800px-France_in_XXI_Century._School800px-France_in_XXI_Century._Toilette_madame800px-France_in_XXI_Century._War_cars800px-France_in_XXI_Century._War_planeFrance_in_XXI_Century._Race_in_PacificFrance_in_XXI_Century._Water_croquetFrance_in_XXI_Century._Whale_bus

Via http://publicdomainreview.org/

GOSTOU DESTE POST?
QUER RECEBER NOSSAS NOVIDADES E CONTEÚDO EXCLUSIVO EM SEU E-MAIL?
ASSINE NOSSA NEWSLETTER !

Ver o post original

A peste e a arte

No vídeo George Didi-Huberman indica um dos caminhos da arte de hoje.

A peste dos nossos tempos está contaminando lentamente, sistematicamente a arte.

O que é esta peste? Trata-se de um virus que se insinua dissimuladamente na forma de discurso democratico, travestido de liberdade de opinião, mas que no fundo de suas inconfessáveis intenções, mantém apenas um desejo: estabelecer uma discussão rasa, superficial, reduzida, sobre o que é certo ou errado. Definir o bem e o mal, determinar o que é esquerda ou direita, vaticinar o que é certo ou errado, enfim conceituar (no caso específico da arte) se é arte ou não aquilo que penduram nas paredes ou colocam no meio das ruas.

Com a ascensão do conservadorismo em países importantes no cenário mundial, como os Estados Unidos, crescem também as mobilizações de grupos alinhados com o pensamento conservador que desejam ocupar espaço e defender suas ideias. Até aí tudo está certo e tem legitimidade.

Porém o maniqueísmo no discurso, empoderado por vitórias eleitorais em grandes potências, já segue a mesma receita do marketing indicando, que quanto maior a truculência maior é a geração de benefícios. A estratégia é criar, de cara, a opinião do ame-o ou deixe-o, amor ou ódio, verdade ou mentira. Sem espaço para o aprofundamento das discussões, sem a riqueza das nuances que sempre caracterizaram o pensamento complexo, envolvente, da grande filosofia, literatura ou arte.

O discurso conservador que se espalha mundo afora sobre as características da arte não servem para nada, é obtuso, não possui liberdade, tampouco inteligência. Vomita suas frustrações e tenta destruir com um só golpe todo o caminho percorrido por grandes artistas e pensadores. É um grito desesperado que tenta manter acessa sua chama enfraquecida nas derrotas diárias da opressão e da força.

Acusam a arte contemporanea de hegemônica e não querem ver que não há mais limites ou fronteiras criativas nas artes produzidas em nossos dias. Este monólogo limitado e redutor não pode ganhar espaço entre aqueles que se expressam para compreenderem melhor ao outro e a si mesmo. São descobertas diárias que não possuem receitas, manuais, ou cartilhas. Nem à esquerda, tampouco à direita. A arte está sempre nas dobraduras, nas diagonais, nos descaminhos, nas inflexões. E por aí seguirá.

 

Humano, demasiado humano

 

O título deste texto é um livro de Friedrich Nietzsche, onde o filósofo alemão destrói, de maneira consistente, as realidades eternas e as verdades absolutas, de sua época. Nietzsche nos apresenta o conceito de espírito livre e projeta o comportamento do homem do futuro.

Neste livro de aforismos faz um crítica pesada sobre a história da filosofia e da ciência, nos dando conta que elas não atingiram seu objetivo de ajudarem na construção de espíritos realmente livres: homens que não permanecem no conforto do trilho já aberto por seus antecessores, mas que desbrava seu próprio caminho.

Mas apenas cito Nietzsche, um iconoclasta absoluto, porque considero sua obra como o bisturi, mais afiado, sobre a carne macia dos homens entorpecidos pelo som hegemônico do poder.

O poder que sempre controlou através de sua mais conhecida ferramenta: o medo.

Assim, nos últimos 100 anos, a população mundial, entre capitalismo e socialismo, vagou perdida entre informações e desinformações. Uma divisão maniqueísta que servia aos dois senhores. Anjos e demônios. Uns exploravam os mais fracos para obtenção do lucro, os outros comiam criancinhas, além de serem ateus.

Dessa forma, de maneira segmentada, quem detém algum poder sempre utiliza o medo como seu aliado para a manutenção deste mesmo poder.

Alguns exemplos são fáceis de serem comprovados: A indústria farmacêutica e seus remédios salvadores, a indústria religiosa e suas doações salvadoras, a indústria da segurança e suas câmeras e alarmes protetores.

Quem conhece a obra de Thomas Malthus, cientista inglês, falecido no século XIX, sabe de sua projeção de fome, miséria e doenças, a partir de estudos sobre o crescimento aritmético da produção de alimentos contra o crescimento  geométrico da população mundial. Lançou o terror sobre as pessoas e depois vendeu sua tese de controle da natalidade, castidade, etc. Como bom religioso anglicano que era, depois de estruturar o problema da matéria, entrou no campo do espírito para concluir seu estudo de caráter moralizante.

Porém nenhuma destas estratégias e modus operandi me surpreende. Esta era a nossa história, uma história feita de muitos equívocos, sangue e lágrimas, onde caminhávamos quase tateando sobre a geografia escarpada e difícil do planeta, sem uma ampla visão do todo.

Mas chegamos aqui com um mundo “menor”, mais próximo onde nunca se falou tanto em tolerância, compreensão, diferenças, compartilhamento, etc. E o fruto desta inflexão, mudança de comportamento, que retirou os “humanos” da discussão focada no cadáver capitalismo/comunismo foi: o ambientalismo. Nossa última e mais recente utopia. Uma nova hóstia para ser ingerida.

Minha surpresa reside aí. O discurso estruturado dos ambientalistas, segue com a lógica velha, utilizando o medo como bengala. Aquecimento global, elevação do mar, degelo das calotas polares, camada de ozônio, etc…. Dados deturpados, enganosos para que a população mundial tenha aderência através do pavor, do medo da morte, da incerteza no futuro.

É realmente triste que uma discussão positiva e importante como esta seja tratada de forma tão venal. É fundamental abordarmos os recursos naturais, sua utilização pelo homem, a definição dos nossos limites, mas sem a posição hegemônica e monolítica, mais uma vez do poder econômico travestido de cordeiro.

Nietzsche ainda aguarda a nossa construção de espíritos livres. Mas sem o devido espaço para o contraditório, para pensamentos divergentes ou mesmo antagônicos, sem o respeito às diferenças (sistematicamente defendidas nas vanguardas), não avançaremos um milímetro. Espero que o Ambientalismo não se transforme em mais uma marca, como tantas outras, vendida em nossos shoppings…

 

 

Giacometti em Londres

Giacometi1_Fotor

Giacometti e Genet

A Tate Modern mostra até 10 de setembro deste ano uma das maiores exposições sobre Alberto Giacometti (1901/1966) realizadas na Inglaterra. Escultor, pintor e desenhista Giacometti possui uma das obras mais sólidas do chamado modernismo no último século.

Da mesma forma que a de Van Gogh, a obra de Giacometti é moída, remoída, pisada e repisada todos os dias em um processo lento, obsessivo, permanente, que atua sobre si mesmo. É como se o artista desejasse filtrar suas linhas, formas e cores, depurando constantemente seu próprio elemento.

Um processo que se assemelha à pintura oriental, onde pintores copiam aos seus mestres constantemente, em uma espiral que se repete, sem jamais ser a mesma.

A desfragmentação da imagem em Giacometti se sobrepõe, trabalho após trabalho, em um palimpsesto onde o caos está aprisionado em limites rigorosos, construídos por linhas perpendiculares, longitudinais, transversais. Giacometti se copia constantemente sem jamais se repetir.

Considero ainda que a força descomunal de sua obra está no fato de que Giacometti é único, seja na pintura, desenho ou escultura, ele é monolítico, não existe no conjunto de seus trabalhos um só espaço vazio ou mesmo qualquer área vacilante. Suas imagens são rigorosas e irrespiráveis.

Estar na frente de um Giacometti é um desafio, uma experiência que nos transporta a outro lugar sem que nenhum músculo do nosso corpo se movimente.

Jean Genet 1954 or 1955 by Alberto Giacometti 1901-1966

Retrato de Jean Genet por Giacometti

Para conhecer um pouco mais desta obra singular devemos ler um dos seus retratados ilustre e maldito: Jean Genet em O Ateliê de Giacometti. Vale conferir.

Sons de John Cage

A música de John Cage não permite que os ouvidos a percebam como música, – aquela doce e melodiosa que conhecíamos até aqui – mas como apenas como sons. Incluindo aí, com importância essencial, o silêncio, tão revelado pelo autor, valorizando assim o sons que vem do outro (daquele que ouve e respira).

A música melódica, tonal, que conhecemos e aprendemos a reconhecer ou ler, desde suas origens, passa pelo classismo, barroco e romantismo se diluindo até o inicio do século XX. Sons encadeados perfeitamente para nossos cinco sentidos. Sobretudo aquilo que é tátil, no sistema auditivo e a pele que absorve o ritmo em camadas de vibração celular. Esta música, como a conhecíamos há alguns anos, tem relação direta com as medidas do nosso corpo, com o alcance da visão, com os aromas da memória. Trata-se de música definida nas escalas do vento que percebemos em nossa pele, nas linhas das montanhas visíveis, no balanço do mar que se extingue em um arco como horizonte. A música tonal é encadeada como são as ligações naturais, como o balanço das árvores, o movimento dos animais. Esta música é músculo em contração, é respiração contínua, fazíamos música como olhávamos para o mundo, um olhar rápido e desinteressado, ou rápido e profundo, um olhar obcecado e permanente, triste ou melancólico. Uma música encadeada, setenária, contínua sem rupturas, sem vazios, sem desafios, aconchegante, maternal. A música que nos trouxe até aqui projeta linhas que se movimentam e giram ao nosso redor criando um vórtice que nos envolve e protege. Ela é antropométrica em nossa relação com o meio.

Nos anos 40 John Cage entra em contato com uma câmara anecóica (Anechoic chamber), um ambiente criado pela engenharia, com seis paredes feitas com material especial para não reverberar nenhum eco. Um lugar que proporcionaria um silêncio quase total. E é aí neste local que Cage descobre que não existe silêncio, os sons internos, do seu próprio corpo ocupam seus sentidos e abrem perspectivas infinitas para sua música. Esta experiência inaugura um espaço para sons difíceis, duros, aleatórios, distantes das medidas do nosso corpo mais superficial ou mesmo da natureza visível que nos cerca.

Ao mesmo tempo em que desenha caminhos para Cage valorizar todos os sons que nos circundam, confira nas palavras do músico em outro post, independente da “genialidade” do artista, o que vale para Cage é a multiplicidade estabelecida entre artista, obra e ouvinte. Aqui encontramos uma similaridade com a obra de Duchamp que nos recoloca frente a frente com os objetos prosaicos disponíveis a nossa volta em seus ready mades, da mesma forma que Cage nos coloca diante dos sons que nos cercam em todos os segundos da nossa vida.

Mas independentemente das inferências filosóficas retiradas da obra de John Cage, ao revelar os sons singulares do microcosmo, sua música igualmente nos eleva aos sons do macrocosmo, das estrelas. Um eco e um oco sonoro de raios cósmicos, um som de partículas em deslocamento, fluxo elementar passando por nossos ouvido e pele. Sua música revela a permeabilidade celular  e orgânica dos líquidos, os impulsos elétricos do córtex animal, mas simultaneamente o pulso das estrelas, a viagem da luz no vácuo, entre milhões de partículas gravitando de forma intempestiva.

Sua música está “em lugar algum” do nosso espaço circundante. E ao mesmo tempo, infinitamente próxima, íntima, dissolvida no “eu”. É a música de um momento presente – um átimo entre dois movimentos -, pontual, único, porém de um ser singular mas completamente permeável ao outro.

Enquanto a melodia afaga e agasalha nossas emoções, os sons de Cage sacode nosso espírito.

A vida tem mesmo valor?

mascaras_Fotor

Muito se fala em mal do século. E muitos males são definidos como sendo o “principal mal do século”. Alguns são doenças, algumas físicas, outras psicológicas, outros males ainda estão no campo subjetivo da ética como: preconceito, violência, subjugação, etc. Temos ainda os grandes males objetivos como: a guerra, o dinheiro, as drogas, e tantos males se empilham que provavelmente teríamos uma nova torre de babel se elevando em direção aos céus.

Eu gostaria de chamar a atenção para uma palavra e ao mesmo tempo atitude que, para mim, está na base, na formação de muitos dos nossos males contemporâneos.

Eu estou falando da “hipocrisia”.

A hipocrisia por definição é o ato de fingir que se tenha qualidades, idéias ou sentimentos que na realidade não se possui. Provem do Latin hyposrisis e Grego hypokrisis que significam ação de desempenhar um papel.

Alguns pensadores modernos afirmam que a hipocrisia é o único cimento que permite a convivência tão próxima entre as crenças do espírito religioso e o capitalismo como o conhecemos. Portanto a hipocrisia permeia todas as nossas grandes ambiguidades, os paradoxos atuais, as contradições humanas.

François Duque de Rochefoucauld define de maneira mordaz a essência do comportamento hipócrita: “A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”. Ou seja, todo hipócrita finge emular comportamentos corretos, virtuosos, socialmente aceitos.

Já para o linguista Noam Chomsky, a hipocrisia, é definida como:  a recusa de “… aplicar a nós mesmos os mesmos valores que se aplicam a outros”.

Nós, no Brasil dos superlativos, vivemos hoje uma das maiores crises de hipocrisia cristalizada em uma sociedade em todos os tempos. Exigimos dos outros, de forma radical, aquilo que nós mesmos não fazemos.

Mas, muito além das fronteiras brasileiras, encontrei outra pérola da hipocrisia humana. Semanas atrás foi noticiada na imprensa internacional ocidental, com um certo orgulho, a quebra do recorde de tiros a distância. O problema desta nota é que seria prosaica caso o alvo não fosse uma pessoa.

A matéria foi tratada de forma técnica, fria, cirúrgica explicando a distância de 3.5 km, a curvatura da terra que foi levada em consideração, os 10 segundos que a bala levou para cobrir o trajeto, enfim uma ode ao tecnicismo, além da apologia à qualificação da arma canadense e do conhecimento dos nossos “snipers”. Todas as matérias que li tinham a mesma abordagem árida, como se a bala fosse em direção à uma lata velha.

Captura de Tela 2017-07-06 às 13.24.08

matéria G1

Simultaneamente, nossa sociedade através da educação que nos proporciona, dos padrões religiosos que prega, das bandeiras de solidariedade que empunha, defende com unhas e dentes os valores da vida, da sua manutenção.

Somos críticos mordazes dos nossos próprios antepassados, que por qualquer motivo, retiravam a vida do mais fraco, críticos das instituições como a inquisição que matavas sem pestanejar, da força, da guilhotina, da idade média e seu obscurantismo e incivilidade que retiraram tantas vidas inocentes. Épocas onde, dizemos hoje, a vida não tinha qualquer valor.

Somos realmente quem dizemos que somos? Somos defensores da vida em sua totalidade? Ou nos interessa apenas uma parte da vida, uma parte dos vivos?

Ainda estamos escondidos sob a mascará da hipocrisia, chorando apenas os nossos cadáveres (ainda assim nem todos), sofrendo apenas com os nossos males.

A arte e a luz

Alex3_Fotor_Collage

Colagens de Alex Sernambi

Um amigo me pede para avaliar seus trabalhos. Quer uma opinião sincera, que poderá, inclusive ser extremamente dura, conforme suas palavras . Deseja minha abordagem, absolutamente verdadeira, para ajudá-lo na decisão sobre seu caminho relacionado aos trabalhos gráficos que já realiza. Perguntas que todos nós que trabalhamos com arte, independentemente da linguagem ou do tempo, já nos fizemos algum dia: Vale a pena seguir fazendo o que faço? Qual o valor daquilo que faço em um mundo que produz tanto? O que faço é importante para alguém, além de mim mesmo?

O caminho da arte, do ponto de vista destas angústias pessoais e silenciosas, talvez seja o mais árduo. Por que digo isso? Porque a arte não tem, como tantos outros ofícios, uma função objetiva, não produzimos pão, não salvamos vidas, não construimos casas. Nosso ofício tampouco deve ter compromisso com a linearidade ou mesmo com a coerência, como as têm a ciência, filosofia ou religião.

Geralmente são nas inflexões, nas mudanças bruscas de rumo, nos desvãos e contradições, que encontramos as verdadeiras fontes do nosso trabalho. É aí onde revelamos as melhores imagens, a melhor luz, cores, ou sons. Somos movidos por uma angústia psíquica permanente, a inquietude da mente ou da mão em sua busca constante por novas relações, novos sentidos, observando através de frestas que nos permitam ver além da matéria mais imediata.

Mas, antes mesmo de escrever sobre o trabalho de Alex – é como chama-se meu amigo, estudamos juntos na Escola Nacional de Bela Arte no Rio de Janeiro nos anos 80 – gostaria de afirmar que as pessoas, em seus mundos, em qualquer situação que se encontrem, estão necessitando de mais arte. Toda forma de arte é essencial à respiração do indivíduo, como também do coletivo. Em um mundo subjugado pela produção em série a serviço do consumo, a poesia da forma, da palavra e dos sons, me parece ser o único alimento descontaminado, que mantém nossa inquietação ativa. As escolas e tendências da arte se foram, os estilos fragmentaram-se em uma multiplicidade inacreditável, na medida em que as amarras teóricas dos grandes “ismos” romperam-se definitivamente. Dia após dia ganham força e importância as histórias pessoais, as marcas sobre a pele de pessoas que as expressam no plano da sua arte.

Portanto Alex tem muito a nos dizer ,seu trabalho é sólido e tem maturidade, e basta um olhar rápido sobre seus trabalhos para perceber esse volume acumulado em sua retina que lentamente é aplicado em um plano bidimensional com o cuidado de quem define uma cena tensa é rigorosa.

Mas agora vamos entrar nas especificidades. Cada artista tem suas singularidades, sua construção, suas ferramentas materiais e espirituais. Alex sempre me impressionou por duas características fortes: sua ironia refinada – dona de uma risada nervosa e contagiante – e simultaneamente uma carga depressiva – que arrasta sua visão aos nossos porões e subsolos com muita facilidade.

Encontro estas duas referências, bem estruturadas, em seus trabalhos gráficos. São duas linhas marcadas em sua produção. Mas não gostaria de limitar meu raciocínio neste círculo psicológico, porque acho mesmo que o processo criativo vai muito além da própria carga pessoal do autor. Alex tem utilizado a colagem como meio expressivo há muitos anos. Me lembro de trabalhos iniciais onde a aparente facilidade técnica da colagem resultava em um trabalho excessivamente carregado, com toda a carga irônica de uma realidade nonsense. São bons trabalhos que nos atingem através da força da construção barroca, onde a ilusão do detalhe se funde em uma grande imagem que nos impacta mais ou menos conforme o apelo da unidade resultante.

Mas, as colagens de Alex, rapidamente o arrastam para um campo que ele conhece bem, a luz. Quando os seus trabalhos iniciais – que eu descrevi acima – recebem um tratamento especial da luz, ganham mais um novo elemento, um valor de transcendência, naquilo que suas imagens já haviam conquistado. Os trabalhos de Alex, em primeiro lugar ganham com a diminuição de elementos e ampliação da atmosfera. Suas imagens tornam-se dramáticas, sem perder o potencial irônico. Suas obras nos retiram do mundo aparente e nos direcionam para os subterrâneos, para os nossos porões. E é aí que sua arte ganha força. Este, para mim é o caminho amplo e fecundo que se abre para o aprofundamento da obra de Alex.

Se você quer conhecer mais do trabalho de Alex clique aqui.

 

O Panóptico chamado Brasil

ALGEMAS

O Brasil torna-se lentamente um estado policialesco, onde justiça, ministério público, e os diversos tipos de polícia que temos por aqui: Federal, Civil, Militar, Municipais, etc. tornaram-se protagonistas e verdadeiras locomotivas na mídia brasileira. Inclusive com personagens que estão quase na condição de celebridades ou personagens.

Por tudo aquilo que temos visto ser desenterrado nos porões do poder em Brasília, além de vários outros estados brasileiros, não há dúvida que, nos últimos anos, os volumes financeiros desviados rapidamente estariam expostos, se transformando em caso de polícia. O criminoso sempre peca pelo excesso. Mas também é verdade que quando a força de coerção passa de sua medida legal, chegamos a algo muito parecido com o fascismo, ditadura ou coronelismo, mais ao nosso gosto colonial. Um estado de exceção. Onde câmeras, grampos telefônicos, gravadores de bolso, disfarçados, dissimulados, delatores do inconfessável, são as ferramentas mais eficientes para nos aproximarmos da verdade, ou para utilizar um termo mais atual: transparência.

Como já disse aqui neste blog em um texto chamado “Pacotes, operações e o futuro”, desde 2003 foram feitas, apenas pela Polícia Federal, mais de 3 mil operações de grande porte, envolvendo setores públicos e empresas privadas, além de organizações não governamentais.

Me parece que se as operações estão aí é porque criminosos e crimes existem. A pergunta que faço é: quais os resultados destas operações, o que elas resgataram aos cofres públicos do que foi retirado deles? Quantos foram punidos nestas mais de 3 mil operações? Como elas podem evitar que novos crimes sejam cometidos? Se estas perguntas não forem respondidas consistentemente, para mim, de nada valeram as operações, também feitas com dinheiro público.

Em outros países com discursos também embasados no caráter de urgência, de emergência, ou mesmo de segurança nacional lançou-se mão da força “policial”, para combater o “inimigo”.

Cito aqui o exemplo do Macarthismo nos EUA, que “visando o bem” da sociedade americana e a preservação da sua democracia, por força policial matou milhares, além de expulsar muitos outros do país, em nome do combate ao comunismo. O governo francês também decretou estado de urgência no outono francês de 2005 e inverno de 2006, para controlar as chamadas Zonas Urbanas Sensíveis – a periferia de Paris e outras regiões onde vivem 5 milhões de franceses, na sua maioria descendentes de árabes e de africanos, em função de manifestações sociais. Outro exemplo clássico e atual é o National Defense Authorization Act (NDAA), de 2012 justificado pelos atentados do 11 de setembro de 2001, prevê, entre outras agressões civis, que cidadãos americanos possam ser mantidos presos sem acusação formal e sem julgamento por tempo indeterminado, em nome do “combate ao terrorismo”.

Me parece que o Brasil e sua população não escolheu o caminho da ditadura, mas não deseja também a corrupção instalada junto aos poderes. Esperamos que as forças policiais apenas combatam o crime em todos os seus âmbitos.

Estou certo que corrupção não se combate com força policial. Se combate com força cultural, educacional, com a força do exemplo individual. Polícia serve apenas para punir o crime já comprovado. Polícia nunca foi e não será agente transformador, apenas uma força repressora e mais ou menos necessária conforme a organização social.

Lembro de Michel Foucault e seu estudo sobre sociedade e poder, que resgata a ideia de Jeremy Bentham do Panóptico, um dispositivos de vigilância do início do século, onde a vigilância policial domina a distribuição de corpos em diversificadas superfícies (prisões, manicómios, escolas, fábricas). Neste livro, “Vigiar e Punir”, Foucault altera o modo de pensar e fazer política social no mundo ocidental.

Precisamos estar atentos ao frágil Brasil. Não precisamos de heróis, de justiceiros, não precisamos de mais força de repressão. Precisamos combater o crime. Mas com a certeza que corrupção e crimes se combatem com inteligência, com cultura, com educação, com igualdade de oportunidades, e principalmente valorizando as atitudes individuais de respeito ao outro em nosso dia a dia.