Quando a luz se espalha

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Nazistas fazem fogueira com livros em cena de filme.

A exposição cancelada pelo Santander Cultural “Querrmuseu – cartografias da diferença na arte brasileira” é um daqueles momentos em que a claridade se faz maior. O ambiente é iluminado, muitos disfarces se dissolvem, os ratos saem dos porões, os covardes se revelam diante de uma decisão a ser tomada. A ignorância cresce alimentada por “uma verdade”. E o resultado? Uma iluminada, porém miserável visão da intolerância se espalhando lentamente por espaços públicos e privados em nossa sociedade.

Os atores: O curador, O Banco e o Público (que se divide em vários….começando com os possessos, passando por aqueles que se interessam por arte, até aqueles que estão querendo entender, até agora, o que está acontecendo). Mas não vou me concentrar nos “atores” porque estes foram dissecados brilhantemente por Sheila Leirner no belo e preciso post “Que vergonha senhores“, onde ela mostra as contradições, equívocos e hipocrisias, de todos os atores, tão características destas situações que chamo de “iluminantes”.

A ignorância, o conservadorismo extremo institucionalizado confunde (deliberadamente) as imagens penduradas nas paredes dos museus e galerias com seus ícones sagrados, seus santos, cultos e crenças, levando à histeria os inocentes úteis, reverberando ódio e intolerância através das redes anti-sociais. Esta cortina de fumaça contemporânea, lançada por uns, espalhada por outros, faz com que o olhar da sociedade se reduza a nada, restam olhos estéreis, duros, áridos. Olhos cegos.

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O Cristo demasiadamente humano de Grünewald, zoofilia ou o Jardim da delícias de Hieronymus Bosch, o Papa ou Inocêncio X de Francis Bacon?

A arte, que nos olha, sempre alimentou nosso espírito, nunca conteve um movimento de ódio, jamais deteve o estuprador ou o pedófilo, não impediu um assassinato, não terminou com uma guerra. O homem não precisa da arte para cometer suas atrocidades, a nossa mente doentia nos basta.

Mesmo nos momentos históricos mais conservadores, onde a arte estava censurada, controlada ou mesmo banida, as perversões mais inconfessáveis continuaram sendo executadas diariamente, apenas não eram visíveis.

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Pedofilia ou arte grega, homossexualismo ou Gabrielle d’Estrées com a duquesa de Villars ao banho, pornografia ou A origem do mundo de Gustave Courbet?

Talvez os possessos que forçaram o fechamento da exposição queiram revisitar a história da arte para fazer um filtro do que pode ou não ser exposto, definir o que é arte ou não, o que valeu a pena no caminho das artes dos últimos séculos.

Não se lacra jamais uma exposição, um espetáculo ou manifestação de arte. Discute-se em liberdade e com autoridade. Um julgamento interno ou externo, uma crítica feroz com ou sem aplausos, ou mesmo a indiferença e o silêncio, todas as hipóteses nos elevam. Mas a história já nos ensinou (espero que não repitamos), não é saudável tocar fogo em livros, confiscar obras degeneradas, ou dar cicuta para filósofos. A história segue e a guilhotina pode servir também para quem a comanda.

Vale uma leitura sobre o tema do olhar em “O que vemos, o que nos olha” de Georges Didi-Huberman, filósofo, historiador, crítico de arte e professor da École de Hautes Études em Sciences Sociales.

 

Poesia: pão ou maldição?

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Filme: Livro de cabeceira de Peter Greenaway

A poesia está em todas as faces humanas, na pintura, na palavra, no silêncio, na música, na escultura, no mármore, na forma, no informe, no conteúdo, na arquitetura, na curva, na linha reta, mas também no espaço imenso do mar, ou deserto, no branco das terras geladas, no negro das minas profundas. A poesia está em tudo o que pode emocionar, paralisar, aterrorizar, elevar mas também imobilizar mulheres e homens. Mas alguns dizem que a poesia tem todas as faces e nenhuma simultaneamente. Nos diz Octavio Paz: “o poema é uma máscara que oculta o vazio“. O que diremos, então, sobre o poeta que tem como ofício desvelar essa poesia que está em tudo, sem pertencer a nada?

Poeta britânico e posteriormente naturalizado norte-americano Wystan Hugh Auden (1907/1973) é um dos poetas chaves da sua geração. Ele mesmo em seus textos indica as dificuldades e ambiguidades do caminho: “Em meu sonho acordado de uma Escola para Poetas, o currículo seria como segue:

1)  Além do inglês, seriam exigidas pelo menos uma língua antiga, provavelmente grego ou hebraico, e duas línguas modernas. 2)  Milhares de versos nessas línguas seriam aprendidos de cor. 3)  A biblioteca não teria livros de crítica literária e o único exercício crítico exigido dos estudantes seria escrever paródias. 4)  Seriam exigidos, de todos os estudantes, cursos de prosódia, retórica e filologia comparada, e todos precisariam escolher três cursos entre matemática, história natural, geologia, meteorologia, arqueologia, mitologia, liturgia e culinária. 5)  Todo estudante seria obrigado a cuidar de um animal doméstico e a cultivar um pequeno jardim.

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O Último romance escrito por Hermann Hesse, escritor alemão (1877/1962), publicado em 1943, “O Jogo das Contas de Vidro ou O Jogo de Avelórios” descreve uma população mítica, vivendo no ano 2200, onde as regras e o desenvolvimento do jogo, que é central na comunidade, ganham contornos de uma imensa articulação de conhecimentos ligados a arte, a linguística, a ciência, especialmente a matemática e a música. Os jogadores devem relacionar todos estes conhecimentos. Qual o objetivo do jogo? Provavelmente a elevação material e espiritual. Minha perspectiva é que Hesse buscava descrever a sociedade que havia encontrado o espaço da poesia. A poesia como guia, condutora da sociedade. O jogo revela a poética onde o poeta utiliza necessariamente pseudônimo e após morrer se dilui no anonimato.

A imagem poética é a explosão de uma imagem, em sua novidade, em sua atividade. Aquilo que é vasto reúne os contrários, ser e mundo, imensidão e intimidade, grande e pequeno, assim como, dia e noite.” Assim fala Bachelard, filósofo e poeta francês (1884/1962) confirmando a imagem fulgurante que falamos em outros textos sobre o infinito.

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Para finalizar cito Octavio Paz: “A impossibilidade de escrever um poema absoluto em condições também absolutas, tema de Igitur e da primeira parte de Un coup de dés, graças à crítica, à negação, converte-se na possibilidade, agora e aqui, de escrever um poema aberto em direção ao infinito. O poema não nega o acaso, mas o neutraliza ou dissolve: il réduit le hasard à l’infiniti”. Texto de Paz sobre o poema de Mallarmé, poeta francês (1842/1898).

Perspectiva do infinito

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Gravuras de M. C. Escher

Nascido Maurits Cornelis Escher (1898-1972), durante sua vida realizou 448 litografias, xilogravuras, mais de 2000 desenhos, água-tintas entre outras, tornou-se mundialmente conhecido como M.C. Escher. O artista gráfico que subverteu a perspectiva, transformando o espaço bidimensional em um campo para além da tridimensionalidade. Procurou matemáticos para alimentar, com o rigor estético, a poética que sua arte desejava.

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Mas o que sempre me instiga na arte de Escher é sua habilidade para nos colocar em um território, ao mesmo tempo, orgânico e geométrico. Permanece visível o caos em sua ordem quase perfeita. Ele reúne luz e sombra ocupando o mesmo espaço, revolvendo a física enquanto a reafirma. Suas linhas retas, suas perspectivas renascentistas, incrivelmente nos remetem por caminhos caóticos e tortuosos.

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Suas noites são também dias, seus peixes voam igualmente como aves, os corpos que sobem as escadas são os mesmos que também estão descendo. Sua curvas são retas e estas por sua vez são sinuosas, quem vê também é olhado, Aquilo que está dentro igualmente está fora. Nada parece estar fora do lugar. Escher abre perspectivas e ângulos nos colocando em reflexão sobre os espaços que ocupamos: O que existe ou coexiste em nosso entorno? Algo ou alguém também ocupa o espaço e o tempo em que estamos vivendo?

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Este é o infinito que tento descrever também nos dois outros posts sobre o tema: Máscaras do infinito e Onde habita o infinito. Um infinito que se apresenta aqui e agora. Ele não está infinitamente distante ou imensamente para dentro de nossas profundezas moleculares. Esse infinito nos permeia e desta forma nos coloca em contato com o passado absoluto e o futuro das possibilidades.

Escher conseguiu corporificar, através de um choque com nossas mais sólidas percepções, o infinito em imagens reveladoras e fulgurantes. Esse é o caminho que confere liberdade e autoridade à arte desejada.

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Infinite Perspective 

Etchings by M. C. Escher

During his life Maurits Cornelis Escher (1898-1972) produced 448 lithographs and woodcuts and more than 2,000 drawings, water-paints and other works. He became known worldwide as  M.C. Escher, the graphic artist who subverted perspective, transforming two-dimensional space into a field beyond tri-dimensionality. He turned to mathematics to nourish, in combination with aesthetic rigor, the poetics that his art desired.

What has always instigated me in Escher’s art is his ability to place us in a territory that is simultaneously organic and geometric. Chaos remains visible in his nearly perfect order. He combines light and shadow to occupy a single space, revolving the physics as he reaffirms it. His straight lines and Renaissance perspective incredibly lead us on chaotic and torturous paths.

His nights are also days, his fish fly like birds, bodies that climb stairs are the same as those that descend them. His curves are straight lines, which in turn are sinuous. Those who see are also seen. That which is inside is also outside. Nothing appears out of place. Escher opens perspectives and angles causing us to reflect on the spaces that we occupy: what exists or coexists around us? Does something or someone occupy the same space and time in which we are living?

This is the infinite that I have tried to describe in two other posts about the theme: Máscaras do infinito [Masks of the Infinite] and Onde habita o infinito [Where Does the Infinite Reside?]. This infinite is presented here and now. It is not infinitely far or immensely inside our molecular depths. This infinite permeates us and puts us in contact with the absolute past and future of possibilities. Escher is able to embody, by shocking our most solid perceptions, the infinite in revealing and fleeting images. This is the route that confers liberty and authority that his art desired.

 

Máscaras do infinito

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Fotos verticais: madeira bruta. Fotos quadradas de cima para baixo: Máscara Indu, Tibetana e Maori NZ.

As máscaras sempre acompanharam homens e mulheres em seus rituais de morte, de culto à vida, à fecundidade, rituais que celebram a floração da primavera, o retorno das chuvas, enfim todos os ciclos recorrentes, que por si só, já indicam a presença do infinito, repisando cada momento para unir futuro, presente e passado em um único gesto. A utilização de uma máscara.

O infinito nos cerca, está sempre presente ao nosso lado…por que estaria distante?

O infinito nos perpassa todos os momentos, em várias direções, nos corta de forma transversal, longitudinal e diagonalmente. Ele se desloca em multidimensões, no entorno de cada um dos mais de sete bilhões de habitantes da terra, apenas para ficarmos nos humanos.

Este é o infinito manifestado o “presente reminiscente”, do qual falei em meu texto anterior. Sempre perdemos quando não o sentimos, não o vivenciamos. Quando não ouvimos a sua aragem que nos roça e intui.

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Máscaras Africanas

A arte, por não estar (sempre) subjugada às regras, dogmas, ou mesmo por não sofrer, sistematicamente, a influência do comportamento imobilizador imposto pela sociedade, eventualmente encontra-se com esse infinito que se dobra, desdobra e se repete sobre si mesmo.

Sempre que este encontro se dá – entre a arte e esse fluxo de infinito – surge como que um diamante retirado das profundezas da terra.

A madeira que encontra a mão do artesão na Oceania, transformada em máscara termina nas mãos de um sacerdote, participa de rituais, dali transforma-se em ícone de toda uma cultura, que em alguns casos se espraia para outras culturas – seja pela influência pacífica ou mesmo através da guerra – estas imagens se transformam em histórias orais, escritas e iconográficas. Milhares de sacerdotes passam suas máscaras para sucessores, milhões de rituais são realizados. Gerações são impregnadas por esta carga imagética de uma simples máscara que tornou-se um fluxo, um rastro, um oceano.

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Máscara Africana e pintura de Braque

As máscaras, desta forma, se fundem ao infinito e um dia, em um encontro fortuito, se reúne às mãos de um artista que busca uma saída estética para seu trabalho e lá está “o diamante” que funda o cubismo na história da arte.

A arte deve perceber o fluxo das coisas, o movimento do entorno. As mensagens são repassadas para quem as ouve. Os vultos surgem à luz do dia quando estamos prontos para vê-los. Esta é uma “Imagem fulgurante”.

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Pintura de Picasso: Les demoiselles d’Avignon considerada a primeira abordagem cubista na pintura ocidental. Máscara Africana

Onde habita o infinito?

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O infinito bigode de Salvador Dali

Se o universo é infinito, o que há depois dele? Esta pergunta nos acompanha desde que somos crianças.

A percepção de que tratar do infinito é (sempre) tratar daquilo que é “muito grande”, foi construída certamente a partir de nossa perspectiva humana mais básica. Pés fincados no chão, arrastando o corpo pesado sob a gravidade, sem contudo nos impedir de olhar para o céu ao encontro das estrelas mais distantes. O infinito, portanto sempre foi procurado nas distâncias incomensuráveis do universo.

A matemática e seus cálculos nos demonstraram aos poucos que não há apenas um vastíssimo mundo para além, mas também temos um imenso mundo para aquém, ou seja temos um universo para dentro da realidade visível, dentro da matéria que tocamos, sentimos, cheiramos, vemos…

A ciência e a nossa percepção não atingiu nenhuma das duas fronteiras da infinitude. Não chegamos nem perto das bordas do cosmos, tampouco mergulhamos profundamente nas partículas da física quântica (que ficam, a cada descoberta, cada vez mais longe). Estas duas abordagem do infinito (independentemente de serem muito complexas) me parecem ainda muito lineares e pobres. É como se tivéssemos apenas dois caminhos para decifrarmos o infinito. Um para cima e outro para baixo ou para dentro. Um nos levaria ao número máximo, outro ao zero. Isso reafirma a ideia de que vivemos em um universo tridimensional, o que já me parece pouco diante de tudo o que vivemos e experimentamos.

Se o universo possui outras dimensões (o que muitos cientistas já discutem) que ainda não percebemos (e não há nada de espantoso nisso. Basta lembrar que não tínhamos noção do mundo quântico até a primeira metade do século XX), devemos levar em consideração que a percepção de infinito também se modifique. Se, como já afirmamos, o infinito cósmico se caracteriza pela palavra “além”, o infinito quântico se move na direção da palavra “aquém”, me parece que se passarmos a lidar com o infinito de um mundo multidimensional a palavra que irá nos nortear é “entre”.

Esta ideia de infinito em várias dimensões é muito mais complexa e mais próxima, tem um perfil mais humano, é muito mais aproximada ao nosso corpo, a nossa alma, tem mais relação com os ciclos dos seres (animais, vegetais e minerais) sobre a terra, ritual de procriação, nascimento e morte, transformação infinita da matéria que não cessa sua mutação.

O que seria então esse infinito multidimensional? Não é aquele nos leva para longe (para cima ou para dentro). Este é um infinito que acontece no presente, mas que se projeta do passado, estabelecendo o momento seguinte. Um infinito que revolve o passado como em uma escavação arqueológica, repetindo os movimentos humanos, materiais, como o ciclo das chuvas, as estações do ano, os impulsos para o amor, para o crime, para o poder, para a vida, para a procriação ou para o suicídio. A ancestralidade dos homens e das coisas interagindo sobre esse “presente reminiscente”, para usar um termo de Walter Benjamin, que deposita todos os dias mais uma folha repleta de imagens, de atos, gravados sobre o grande palimpsesto humano.

Essa ideia de infinito, que se repete sobre si mesmo, e que somente perceberemos quando descobrirmos as outras dimensões que nos rodeiam, dá conta de todos os nossos atos, dos nossos lapsos, do que vemos, do que nos olha, do que não vemos, do que nos dá alegria e sofrimento, dos eixos que se formam entre pessoas, entre coisa. Ligações de pessoas com paisagens, com sons e ambientes. Ideias que surgem, que se perdem, Rupturas que destroem, que matam para vivificar. Esse infinito sempre alimentou (mesmo sem sabermos) a arte, a ciência, a filosofia e a religião. Pessoas e coisas que nos rodeiam, como ideias distantes, sem que possamos tocá-las, mas que nos transmitem há aproximadamente duzentos mil anos “imagens fulgurantes”, dos caminhos de seres e matérias sobrepostos dia a dia soterrados em um imenso monturo onde habita o infinito.

Desenvolverei essa ideia em mais alguns textos que publicarei aqui. Se você se interessa pelo assunto siga o Blog OF.

 

O baile do rato morto

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Pintura de James Ensor

Tenho uma atração irresistível por arte que leva o fruidor ao seu extremo. Normalmente estas linguagens muito próprias, singulares, e carregadas de tintas com cores insólitas, não se encaixam em grandes tendências ou nas escolas dos seus pares contemporâneos. São artistas com visões extremamente particulares do mundo, suficientemente fortes para sacudir a própria vanguarda do seu tempo.

Solitários neste mundo, estes artistas se arrastam na frente abrindo trilhas nos solos mais inóspitos e totalmente selvagens, seja um deserto, uma floresta, ou mesmo a alma humana. Produzem trabalhos originais, não porque são diferentes, mas porque conseguem beber nas fontes que dão origem ao nosso ser, ou seja, partem sempre de um ponto fundador nascido no presente, mas com a visada em um passado distante. Longe da contaminação intelectual, que apenas lhe serve de báculo, sem sufocar a expressão da força anímica, que nos revolve na vida.

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Pintura de James Ensor

Esta arte, quase invisível aos olhos, tem outra característica muito marcante: ela sempre estabelece ligações excêntricas, raras e poderosas com outras formas de artes que flutuam no mesmo campo gravitacional. E são estas ligações elementares que abrem portas, transformando a ótica, a estética, a experiência e a ética dos seus poucos e também estranhos seguidores.

Um destes casos é James Ensor, nascido em 13 de abril de 1860 na cidade de Ostend, Bélgica. Pintor e gravador, influenciou movimentos posteriores como: expressionismo, simbolismo, fauvismo, surrealismo e mesmo o dadaísmo. Ensor é desconhecido do grande público, porque como falei acima, ele é pouco palatável, não é macio ao toque, não facilita a recepção da mensagem, suas imagens são pontiagudas e cortantes. Mesmo sendo figurativo é grotesco, usa a fantasia do cotidiano para atingir nossos subterrâneos mais profundos, transcende na própria materialidade de suas formas, cores e carnes humanas.

Hieronymus Bosch

Pintura de Hieronymus Bosch

Ensor possui linhas invisíveis que o ligam fortemente a Hieronymus Bosch (holandês) e a  Pieter Bruegel (belga). Eles se confundem em suas máscaras, na convivência com animais que nos dominam, na ideia de terror e horror que nos assombra, na nossa face mais sombria e infernal. Suas figuras estão sempre absorvidas nos festins com clima infantil e ao mesmo tempo diabólico. Sorriem de uma dor infinita em um ambiente aristocrático e decadente. A morfologia humana, em Ensor, carrega a genética animalesca como aura do que somos.

 

bal du rat mort okEm 1898 James Ensor e seus amigos criam o encontro anual e filantrópico “O Baile do Rato Morto”. Um baile de máscaras a moda dos Bals Masqué franceses, que Ensor presenciou em Montmartre, Paris. Nesta visita Ensor também fixou o nome de uma casa da noite parisiense chamada “O Rato Morto”. Este café que por sua vez é retratado em uma pintura de Toulouse-Lautrec.

 

 

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Pintura de Toulouse-Lautrec “No Rato Morto”.

Nesta confluência, nesta esquina do mundo, se encontram Ensor, Bosch, Bruegel, Lautrec, e todos aqueles artistas que conseguem nos levar para o corner, diante de nosso elemento…onde o silêncio pergunta: e a morte?

 

 

 

 

 

 

 

I have an irresistible attraction to art that takes the viewer to the extreme. Normally, these very particular, singular languages painted with unusual colors do not fit into the major trends or schools of their contemporary peers. They are created by artists with extremely unique visions of the world, strong enough to shake the vanguard of their time.

Alone in this world, these artists plod ahead, opening trails in the most inhospitable and totally wild terrain, whether it is a desert, a forest or even the human soul. They produce original works, not because they are different, but because they are able to drink from the sources that give origin to our being, that is, they always begin from a founding point that is born in the present, but with a gaze towards a distant past. They stay far from intellectual contamination, which only serves as a staff, and does not suffocate the forceful expression of the soul that drives us through life.

This art, which is nearly invisible to the eye, has another striking characteristic: it always establishes eccentric, rare and powerful connections with other forms of art that fluctuate in the same gravitational field. These elementary connections open doors, transforming the optics, the aesthetics, the experience and the ethics of their few and strange followers.

James Ensor is one of these artists. He was born on 13 April 1860 in the city of Ostend, Belgium. A painter and engraver, he influenced later movements including expressionism, symbolism, fauvism, surrealism and even Dada. Ensor is unknown to the greater public, because, as I mentioned above, he is not very palatable, he is not soft to the touch, he does not facilitate the reception of the message, his images are pointed and cutting. His work is figurative and grotesque. Using the fantasy of daily life to reach our deepest undergrounds, he transcends in the very materiality of his shapes, colors and human fleshes.

Invisible lines strongly link Ensor to Hieronymus Bosch (from Holland) and to Pieter Bruegel (from Belgium). They are joined by their masks, their conviviality with animals that dominate us, by the idea of terror and horror that haunts us, in our most somber and infernal face. His figures are always absorbed in festivities with simultaneously childish and diabolic airs. They smile from infinite pain in an aristocratic and decadent environment. In Ensor’s work human morphology carries animalesque genetics as an aura of what we are.

In 1898 James Ensor and his friends created the annual philanthropic gathering, “The Dead Rat Ball”. A masquerade ball like the  French Bals Masqué, which Ensor discovered in Montmartre, Paris. From this visit, Ensor also remembered the name of a Parisian nightclub called the “Dead Rat”, a café that is portrayed in a painting by Toulouse-Lautrec.

This confluence, this corner of the world, is the meeting place of Ensor, Bosch, Bruegel, Lautrec, and all those artists who are able to lead us to the corner, to face our element…where the silence asks:  and death?

Combata o ódio com poesia

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Faço minha homenagem aos espanhóis, através de um dos seus maiores poetas.

No dia 18 de agosto de 1936 Frederico García Lorca foi assassinado covardemente em Granada, Espanha.

Até hoje se discute as reais motivações do brutal assassinato. Para mim não importa se as razões são ideológicas, políticas ou mesmo sua orientação sexual. Duas certezas eu tenho, primeiro ninguém deveria ser assassinado por qualquer motivo que seja. E em segundo lugar a poesia de Lorca em sua grandeza superou o ato cometido contra ele, a ponto de se imortalizar em todo o mundo. Aos 38 anos, pintor, compositor, pianista, poeta e dramaturgo, Lorca deixou uma grande uma obra que é também uma lição humana sobre arte, paz, beleza e vida.

O que fizeram os assassinos de Lorca? O mesmo que também fizeram os neonazistas da supremacia branca ao jogar um carro sobre a multidão em Charlottesville. O mesmo que fez o estado islâmico ao jogar uma van sobre a população nas Ramblas em Barcelona no dia de ontem. Mataram por ódio aos que chamam de diferentes.

Qual a diferença entre estas atitudes? O motivo me responderão. E qual motivo é suficientemente forte para provocar assassinado, individual ou em massa de pessoas inocentes?

O que importam as motivações: sejam elas religiosas, culturais, raciais, étnicas, etc. Como escrevi em um texto anterior, acredito que essa visão conservadora e radical está perdendo a força e não encontra ressonância nas gerações mais novas.

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A peste e a arte

No vídeo George Didi-Huberman indica um dos caminhos da arte de hoje.

A peste dos nossos tempos está contaminando lentamente, sistematicamente a arte.

O que é esta peste? Trata-se de um virus que se insinua dissimuladamente na forma de discurso democratico, travestido de liberdade de opinião, mas que no fundo de suas inconfessáveis intenções, mantém apenas um desejo: estabelecer uma discussão rasa, superficial, reduzida, sobre o que é certo ou errado. Definir o bem e o mal, determinar o que é esquerda ou direita, vaticinar o que é certo ou errado, enfim conceituar (no caso específico da arte) se é arte ou não aquilo que penduram nas paredes ou colocam no meio das ruas.

Com a ascensão do conservadorismo em países importantes no cenário mundial, como os Estados Unidos, crescem também as mobilizações de grupos alinhados com o pensamento conservador que desejam ocupar espaço e defender suas ideias. Até aí tudo está certo e tem legitimidade.

Porém o maniqueísmo no discurso, empoderado por vitórias eleitorais em grandes potências, já segue a mesma receita do marketing indicando, que quanto maior a truculência maior é a geração de benefícios. A estratégia é criar, de cara, a opinião do ame-o ou deixe-o, amor ou ódio, verdade ou mentira. Sem espaço para o aprofundamento das discussões, sem a riqueza das nuances que sempre caracterizaram o pensamento complexo, envolvente, da grande filosofia, literatura ou arte.

O discurso conservador que se espalha mundo afora sobre as características da arte não servem para nada, é obtuso, não possui liberdade, tampouco inteligência. Vomita suas frustrações e tenta destruir com um só golpe todo o caminho percorrido por grandes artistas e pensadores. É um grito desesperado que tenta manter acessa sua chama enfraquecida nas derrotas diárias da opressão e da força.

Acusam a arte contemporanea de hegemônica e não querem ver que não há mais limites ou fronteiras criativas nas artes produzidas em nossos dias. Este monólogo limitado e redutor não pode ganhar espaço entre aqueles que se expressam para compreenderem melhor ao outro e a si mesmo. São descobertas diárias que não possuem receitas, manuais, ou cartilhas. Nem à esquerda, tampouco à direita. A arte está sempre nas dobraduras, nas diagonais, nos descaminhos, nas inflexões. E por aí seguirá.

 

Giacometti em Londres

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Giacometti e Genet

A Tate Modern mostra até 10 de setembro deste ano uma das maiores exposições sobre Alberto Giacometti (1901/1966) realizadas na Inglaterra. Escultor, pintor e desenhista Giacometti possui uma das obras mais sólidas do chamado modernismo no último século.

Da mesma forma que a de Van Gogh, a obra de Giacometti é moída, remoída, pisada e repisada todos os dias em um processo lento, obsessivo, permanente, que atua sobre si mesmo. É como se o artista desejasse filtrar suas linhas, formas e cores, depurando constantemente seu próprio elemento.

Um processo que se assemelha à pintura oriental, onde pintores copiam aos seus mestres constantemente, em uma espiral que se repete, sem jamais ser a mesma.

A desfragmentação da imagem em Giacometti se sobrepõe, trabalho após trabalho, em um palimpsesto onde o caos está aprisionado em limites rigorosos, construídos por linhas perpendiculares, longitudinais, transversais. Giacometti se copia constantemente sem jamais se repetir.

Considero ainda que a força descomunal de sua obra está no fato de que Giacometti é único, seja na pintura, desenho ou escultura, ele é monolítico, não existe no conjunto de seus trabalhos um só espaço vazio ou mesmo qualquer área vacilante. Suas imagens são rigorosas e irrespiráveis.

Estar na frente de um Giacometti é um desafio, uma experiência que nos transporta a outro lugar sem que nenhum músculo do nosso corpo se movimente.

Jean Genet 1954 or 1955 by Alberto Giacometti 1901-1966

Retrato de Jean Genet por Giacometti

Para conhecer um pouco mais desta obra singular devemos ler um dos seus retratados ilustre e maldito: Jean Genet em O Ateliê de Giacometti. Vale conferir.

Sons de John Cage

A música de John Cage não permite que os ouvidos a percebam como música, – aquela doce e melodiosa que conhecíamos até aqui – mas como apenas como sons. Incluindo aí, com importância essencial, o silêncio, tão revelado pelo autor, valorizando assim o sons que vem do outro (daquele que ouve e respira).

A música melódica, tonal, que conhecemos e aprendemos a reconhecer ou ler, desde suas origens, passa pelo classismo, barroco e romantismo se diluindo até o inicio do século XX. Sons encadeados perfeitamente para nossos cinco sentidos. Sobretudo aquilo que é tátil, no sistema auditivo e a pele que absorve o ritmo em camadas de vibração celular. Esta música, como a conhecíamos há alguns anos, tem relação direta com as medidas do nosso corpo, com o alcance da visão, com os aromas da memória. Trata-se de música definida nas escalas do vento que percebemos em nossa pele, nas linhas das montanhas visíveis, no balanço do mar que se extingue em um arco como horizonte. A música tonal é encadeada como são as ligações naturais, como o balanço das árvores, o movimento dos animais. Esta música é músculo em contração, é respiração contínua, fazíamos música como olhávamos para o mundo, um olhar rápido e desinteressado, ou rápido e profundo, um olhar obcecado e permanente, triste ou melancólico. Uma música encadeada, setenária, contínua sem rupturas, sem vazios, sem desafios, aconchegante, maternal. A música que nos trouxe até aqui projeta linhas que se movimentam e giram ao nosso redor criando um vórtice que nos envolve e protege. Ela é antropométrica em nossa relação com o meio.

Nos anos 40 John Cage entra em contato com uma câmara anecóica (Anechoic chamber), um ambiente criado pela engenharia, com seis paredes feitas com material especial para não reverberar nenhum eco. Um lugar que proporcionaria um silêncio quase total. E é aí neste local que Cage descobre que não existe silêncio, os sons internos, do seu próprio corpo ocupam seus sentidos e abrem perspectivas infinitas para sua música. Esta experiência inaugura um espaço para sons difíceis, duros, aleatórios, distantes das medidas do nosso corpo mais superficial ou mesmo da natureza visível que nos cerca.

Ao mesmo tempo em que desenha caminhos para Cage valorizar todos os sons que nos circundam, confira nas palavras do músico em outro post, independente da “genialidade” do artista, o que vale para Cage é a multiplicidade estabelecida entre artista, obra e ouvinte. Aqui encontramos uma similaridade com a obra de Duchamp que nos recoloca frente a frente com os objetos prosaicos disponíveis a nossa volta em seus ready mades, da mesma forma que Cage nos coloca diante dos sons que nos cercam em todos os segundos da nossa vida.

Mas independentemente das inferências filosóficas retiradas da obra de John Cage, ao revelar os sons singulares do microcosmo, sua música igualmente nos eleva aos sons do macrocosmo, das estrelas. Um eco e um oco sonoro de raios cósmicos, um som de partículas em deslocamento, fluxo elementar passando por nossos ouvido e pele. Sua música revela a permeabilidade celular  e orgânica dos líquidos, os impulsos elétricos do córtex animal, mas simultaneamente o pulso das estrelas, a viagem da luz no vácuo, entre milhões de partículas gravitando de forma intempestiva.

Sua música está “em lugar algum” do nosso espaço circundante. E ao mesmo tempo, infinitamente próxima, íntima, dissolvida no “eu”. É a música de um momento presente – um átimo entre dois movimentos -, pontual, único, porém de um ser singular mas completamente permeável ao outro.

Enquanto a melodia afaga e agasalha nossas emoções, os sons de Cage sacode nosso espírito.