Os (des)caminhos da ética

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Assisti dois filmes que estão ligados umbilicalmente por uma ideia de justiça, de indignação e revolta. O primeiro foi “O sal da terra ou The Salt of the Earth“, em 2014 (sobre Sebastião Salgado), o segundo “Redenção ou Machine Gun Preacher” (sobre Sam Childers) agora em 2018. Em ambos os filmes um homem se joga de cabeça no abismo de milhares de outros homens, distantes da sua própria realidade. Com o mesmo intuito, com o mesmo instinto os dois protagonistas buscam através de suas diferentes armas combater o horror. Tentar minimizar o sofrimento extremo, a miséria e a loucura a que alguns homens ainda são submetidos por força de poder, armas e violência.

Em 2014 fiquei comovido com o documentário de Win Wenders sobre a saga de Sebastião Salgado que há muitos anos segue os passos de populações refugiadas, expulsas de suas terras, em deslocamentos desumanos, em condições degradantes impostas por regimes tirânicos, ou guerras civis intermináveis e sangrenta. Realidades beirando genocídios.

Neste documentário de Wenders, um dos momentos que mais me tocou e chamou a atenção foi o trecho do filme onde acontece a fuga de milhares de Tutsis na direção da fronteira de Ruanda (país do genocídio) com Zaire e Uganda, depois de terem sido massacrados em seu país, em suas próprias casas aos milhares. E Sebastião Salgado estava lá registrando com suas lentes todos os movimentos, todas as desgraças. Os Tutsis foram assassinados pelos Hutus, nas cidades, no caminho de fuga e no caminho de retorno, já que não foram acolhidos pelos países vizinhos. Os que não morreram pelas mãos Hutus ficaram nas montanhas do país escondidos nas densas florestas, morrendo como os animais. Fala-se de algo entre quinhentos mil e um milhão de mortos. Sebastião deixa no documentário um desabafo emocionante dizendo que quase, além de enlouquecer, perdeu a fé na humanidade.

Salgado, desta experiência, nos deixou imagens de tirar o fôlego, que além de participarem do documentário de Wenders, compõem o livro “Êxodos” e percorrem o mundo em uma exposição das fotos, que vi em Curitiba, no MOM – Museu Oscar Niemayer. Ruanda, Angola e Sudão do Sul são retratados em toda a sua crueza.

Sebastião Salgado não lutou, não empunhou armas como teria feito Hemingway, não matou nenhum Hutu assassino ou estuprador de Tutsis. Salgado registrou tudo, com arte e provavelmente ódio, em sua lente. Fotografou a partir de suas vísceras, transformou seu ofício em uma descarga de testosterona, de adrenalina, com a força de um tiro. Cada foto um tiro. A morte ficou plasmada na imagem, assim o mundo vê hoje a tragédia daquela população.

As fotos de Salgado ajudaram a resolver o problema em Ruanda? Salvaram alguma alma? Protegeram algum grupo de pessoas? Não sei. Talvez, ao levar as imagem da desgraça ao mundo, quem sabe que movimentos diplomáticos, humanitários, políticos, tenham se concretizado. Mas isso agora é irrelevante, os corpos estão lá, a história não retorna, ficaram as imagens; que elas nos sirvam, nos alimentem o espírito contra as atrocidades.

O segundo filme que ligo a este primeiro é “Redenção ou Machine Gun Preacher”  um trabalho que retrata a vida de Sam Childers, um ex-traficante americano que, depois de largar as drogas, se transformar em empresário de sucesso e pastor da igreja que ele mesmo ergueu, dedicou e ainda dedica grande parte de sua vida a resgatar e cuidar de crianças que eram usadas como soldados no Sudão do Sul por milícias locais.

Childers chegou ao Sudão para fazer um trabalho humanitário através de sua igreja. Mas a realidade sanguinária envolvendo crianças e logicamente adultos tocou no gatilho ético do ex-traficante, na época já com filhos pequenos. O pastor então sentiu um chamamento para construir um orfanato, chamado Angels of East Africa, no meio do conflito. O histórico de 30 mil crianças mortas pelas milícias, além de outras milhares que foram sequestradas para a guerrilha, criaram uma estranha criatura que tinha uma bíblia na mão e uma AK47 na outra. Childers ganhou o apelido de “O padre da metralhadora”.

Angels of East Africa resgatou mais de mil crianças e hoje ainda abriga mais de trezentas. Childers não perdeu a fé na humanidade, talvez porque em sua juventude já a tivesse perdido através do mundo das drogas, crimes e penitenciárias. Se instalou dentro deste homem uma divisão, como acontece no encontro de dois rios de águas diferentes. Um deles se dedica com toda a força da sua alma aos carinhos e cuidados com crianças doente e frágeis. Já o outro emprega toda a força do seu corpo para que suas mãos encontrem seus adversários com balas de fuzis e derramem o seu sangue. Este homem impede a violência com violência. Um pacifista com uma certa dose de força.

Mas antes que alguém comece a fazer juízo de valor, ou moralizar o fato sobre o assunto em questão (Afinal hoje é o que mais gostamos de fazer, julgar os outros no conforto do nosso sofá) transcrevo aqui a última frase do filme, que aparece logo depois da apresentação da ficha técnica.

Esta frase dita pelo verdadeiro Sam Childers nos coloca diante de uma encruzilhada moral mostrando toda a complexidade das relações humanas e colocando gentilmente sobre o colo do telespectador a questão ética em ebulição.

Eis a pergunta de Childers: “Se o seu filho ou algum membro da sua família fosse raptado, se um louco ou terrorista chegasse e raptasse um membro do sua família ou o seu filho e se eu dissesse que traria o seu filho de volta para a sua casa seria importante para você como eu faria isso?”

Sebastião Salgado empunha uma máquina fotográfica, Sam Childers mira com uma AK47, seus caminhos são diferentes, seu desejo é o mesmo. Não existem caminhos corretos debaixo do sol, devemos abri-los todos os dias. Seja gentilmente com equipamento leve de jardinagem, seja empunhando um facão e um machado.

Julgamentos? Deixemos para aqueles que acham que conhecem ou detém a verdade.

 

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