Isto é o que somos

Redon Angel_Fotor

Odilon Redon – Angel in chains

A humanidade que carregamos em nós, entre tantos problemas, possui um insolúvel: enquanto nosso corpo nos prende ao chão, nossa mente viaja ao infinito, sonha e deseja além de todo o limite. Octávio Paz nos indica que esta dicotomia não nos permite alcançarmos a felicidade plena.

É fato: precisamos comer todos os dias, necessitamos alimentar nosso corpo para nos deslocarmos, nos abrigar dos perigos externos, mas simultaneamente, nossa mente busca as estrelas, nosso pensamento cria os desejos e necessidades mais distantes daquilo que seria uma simples luta por sobrevivência. Portanto somos diferentes. Saímos do fluxo natural de controle das espécies, da reprodução, dos domínios do instinto, da subjugação às forças da natureza.

Para realizarmos os planos com que sonhamos e ao mesmo tempo alimentar nosso estômago faminto começamos dominando a natureza, em seguida subjugamos outros reinos, e finalmente acabamos por controlar e explorar os nossos próprios semelhantes mais fracos.

Esta dicotomia humana que podemos chamar de “natural”, transferiu-se para os nossos projetos “culturais”, ou seja criamos estruturas sociais, de regulação, produção e proteção cada vez mais complexas para atender demandas de uma sociedade com especificidades crescentes, em vários níveis, diversos padrões e hierarquias muito bem delineadas.

A soma desta dicotomia intrínseca, sobre a estrutura que se consolidou como a instituição social do poder, gera no útero desta sociedade em formação, um ser ambíguo, duplo, dissimulado, subjetivo. Este ser invariavelmente veste uma fantasia e uma máscara. (Carl Gustav Jung nos diz que são as quatro máscaras que utilizamos – Persona, Sombra, Alma e Velho Sábio/Grande Mãe)

Shakespeare em sua obra nos apresenta, de forma requintada, este homem que mente, trai, odeia, difama, destrói, enfim comete as maiores insanidades com a justificativa de estar: “matando a fome, ou realizando os desejos de seu povo”. Justificativas para as conquistas materiais ou espirituais estão na base de todos os projetos de poder (seja um grande ou pequeno poder). Isto é o que somos.

Não faço juízo de valor, apenas chamo a atenção para uma característica constituinte da humanidade e que portanto define também nossas instituições mais antigas. Nada que criamos é “objetivo”, tudo tem sempre uma “dupla intenção”. As instituições de poder tem sua face visível e inexoravelmente também uma invisível, dissimulada. Toda justificativa bem construída e embasada tem suas razões inconfessáveis. Toda intenção pura e imaculada tem raízes em terrenos pantanosos. Toda história clara, límpida que nos chega aos olhos e ouvidos através da consciência tem sua realidade fundada nos campos mais úmidos e sombrios do inconsciente.

Assim se constituem as instituições  sociais, econômicas, religiosas, artísticas, científicas, filantrópicas. Como os homens, elas possuem um plano visível e um mais profundo e, portanto difuso. Esta é uma realidade que precisaríamos enxergar e compreender para percebermos com maior clareza suas verdadeiras motivações, operações e atividades. Caso contrário estarem sempre vendo apenas uma pequena ponta do iceberg. O desenvolvimento do nosso senso crítico depende desta percepção.

Hoje, não é diferente, continuamos os mesmos humanos (talvez com algumas melhorias conforme Steven Pinker) e mesmo no que diz respeito às mais novas tecnologias é fundamental compreender como elas, em seu projeto de poder, contribuem com nossa comunicação e interação global, mas também nos utilizam como títeres neste universo digital. De forma inescapável usamos e somos usados em todas as nossas atividades.

Ninguém hoje acredita que as forças militares, seus braços civis, seus arremedos de milícias, a indústria das armas, foram instituídas e permanecem vivas apenas para a defesa de países pacíficos ou para sustentar uma guerra em caso de agressão. Os militares gostam de falar em ordem, mas qual ordem eles defendem?

As diversas religiões, seus dogmas e textos sagrados, que hoje dificilmente creditaríamos à obra divina,  não foram fundadas para salvar almas perdidas ou mesmo nos mostrar o caminho e garantir um lugar no céu. E mesmo quando uma religião é questionada e seus seguidores rompem os laços para fundar uma nova ordem, sem dúvida nasce uma nova religião tão intolerante, ou mais, que a primeira. Isto foi o que acontece entre católicos e protestantes.

Todas estas estruturas hierárquicas, econômicas, sociais, geraram desigualdades de todas as ordens. Uma das “invenções” humanas para minimizar a imagem deste fosso perverso foram as atividades filantrópicas espalhadas pelo mundo, que seguramente não funcionam e nunca funcionaram  para auxiliar os menos favorecidos e retira-los desta condição. Tampouco auxiliaram em algum momento histórico como ferramenta de distribuição mais equitativa dos recursos e oportunidades. Talvez o alívio das consciências e a carícia na vaidade dos “escolhidos” seja sua mais forte motivação.

Enfim poderíamos citar indefinidamente movimentos individuais, de grupos ou institucionais que mostram sua face pública, seu lema palatável para a maioria, mas que não podem confessar suas verdadeiras intenções obscuras. Os governos populistas não visam definitivamente distribuir os bens materiais entre a população. A ideia de patriotismo não leva uma nação a reforçar sua unidade, caso contrário não teríamos frases como: “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Atividades ambientalistas não se preocupam apenas em salvar o planeta, animais ou vegetais, mas seguramente em abrir um grande e lucrativo mercado. A poderosa indústria farmacêutica não existe obviamente apenas para salvar vidas, bem como a indústria alimentícia não tem como principal foco saciar milhões de famintos e desnutridos.

Desde o nascimentos das organizações sociais, criamos também complexas teorias, conceitos humanitários, milhares de subterfúgios e milhões de maneiras de dissimular as verdadeiras intenções das próprias organizações criadas.

E diferentemente do que poderíamos imaginar não há ninguém ou nenhuma entidade oculta (Um Grande Irmão) manipulando estes interesses. Isto é o que somos.

Em A Microfísica do Poder Foucault já nos explicou que a “verdade” é regulamentada pelo poder instituído. Esta verdade deseja persuadir, moldar e alienar os pensamentos dominados, dando suporte e retroalimentando este mesmo poder instituído, em um ciclo fechado onde nada pode estar fora da ordem.

“O poder deve ser analisado como algo que circula, que funciona em cadeia. Nunca está localizado, nunca está nas mãos de alguns, nunca é classificado como riqueza ou bem. O poder funciona e se exerce em rede. Os indivíduos, em suas malhas, exercem o poder e sofrem sua ação. Cada um de nós é, no fundo, titular de um certo poder e, por isso, também veicula este poder.”

Esta é uma visão essencial para nos posicionarmos de forma crítica diante de um mundo que se estrutura, cada dia mais, em forma de rede, ponto a ponto. A centralidade das coisas tem se diluído, as hierarquias têm perdido sua forma original e piramidal. Estamos vendo nascer não um mundo novo, mas um mundo diferente.

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