Cinco mulheres

Homenagem a Daniel Ballester

Mulheres_Fotor

(acima) Virginia Woolf, Hannah Arendt, Isadora Duncan, (abaixo)  Doris Lessing e Lou Andreas-Salomé.

No final da década de 80, eu trabalhava nas Oficinas de Arte do Museu de Arte de Santa Catarina, quando chegou nas minhas mãos, no corredor, alguns textos do meu irmão e poeta argentino Daniel Ballester. Datilografados em uma Remington sobre papel reutilizado. O título era ‘”Cinco Mulheres”. Textos que, por baixo de sua poderosa poesia, já traziam o hálito de algumas das mulheres que haviam flexionado comportamentos e oxidado padrões de metal polido e fundidos em suas épocas.

Eram elas – as personagens e subtítulos dos poemas – Isadora Duncan, Doris Lessing, Lou Andreas-Salomé, Hannah Arendt e Virginia Woolf. O texto de Ballester era corporal, somático, tangível, para cada uma delas. Não se tratava de poesia feminina, tampouco masculina, apenas poesia fluindo lentamente por entre corpos, músculos, ossos, artérias, interstícios, líquidos, e tecidos nervosos. Cinco mulheres escolhidas por Daniel nos anos 80. Seria hoje sua lista ainda maior, ou suas cinco mulheres estariam para a humanidade como o pentateuco está para todas as nossas almas?

Mulheres que, ao cabo da compressão social, econômica, da carga e tirania religiosa, sobreviveram em número desprezível, aquelas que conseguiram dar seu testemunho, pois necessariamente se obrigaram a passar por uma peneira quase intransponível, finíssima, onde a culpa era a malha insólita e perversa. Mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha do que uma mulher brilhar debaixo do sol.

Mas sabiamente elas e alguns homens deslocados em seu tempo, cresceram brilhando como lua, sem clarear o dia, mas iluminando a noite onde vivem os sonhos, pesadelos e mistérios azulados. Escolheram um campo úmido, fértil para semear, Leaves of Grass ao lado de Walt Whitman, tornaram-se mulheres haicais, mulheres dos lagos, dos saltos, da precisão, do corte da lâmina, da corrente do rio, das folhas na água, do movimento impreciso, inesperado, raro, porém justo, além da estrutura e do rastro masculino da destruição.

Elas que hoje ainda enxergam ou pressentem como antagonistas da objetividade, aquelas que o presente não escraviza ou imobiliza, que nunca caminham com seus corpos sinuosos apenas na superfície, que preferem as regiões abissais, os porões e sótãos, as gavetas e caixas que são casas ou cages, algumas abertas outras trancadas.

Meu texto, deliberadamente, tem pontuações no passado, mas meus verbos ainda se lançam ao presente. É obvio que avançamos muito, mas abaixo do verniz civilizatório ainda resiste um animal selvagem de estimação, do qual não nos libertamos, porque ainda necessitamos da força, da opressão e dominação. Nós com nossos fantasmas, tiranizando os mais fracos, impondo ao espelho nossos movimentos mais torpes, provocando a desigualdade para através do desequilíbrio da perversidade gerar a miséria da fragilidade, do silêncio e do pavor.

Estes textos originais de Daniel estiveram guardados comigo por trinta anos, recentemente os devolvi ao poeta quando esteve comigo, aqui nesta ilha. Provavelmente eles me lembraram, todos os dias destes anos, como detesto homens, mulheres, grupos, sejam socioeconômicos, religiosos ou militares, que ainda têm em suas mãos uma garganta feminina apertada, atando e imobilizando mulheres, sem ofício, sem educação, sem possibilidade de contraposição, sem palavras ou atos de contradição.

Onde? No mundo muçulmano? Nas diversas sociedades onde a intolerância religiosa impõe silêncio? Nos países africanos onde a miséria dita as regras? Não na vizinhança mais próxima à minha casa.

Hoje ainda poderia homenagear outras mulheres mas seguem os poemas de Daniel Ballester:

Hanna

La posición del cadáver no es brutal. Marcas alrededor del pescuezo, la cola inútil y su cabeza dividida entre la columna y el pecho. Apenas un ojo intacto, aún verde luminoso. El otro, vaciado, debe haberse disuelto entre los dedos del verdugo.

Cerco de la voluntad. Desmembramiento del sueño caracol. Espectro y ausencia.

Náusea e imagen

el amanecer demora como una manzana.

Asustada abrió las ventanas de su casa, la oscuridad no le permitió ver más allá del árbol.

Quiso mover el cuerpo, era joven y parecía no haber conocido los mecanismos secretos del sigilo y la red.

La luz abandonó su picardía y los insectos continuaron la operación.

Doris

Apareció con una hoja de laurel en la mano, dijo  que nunca más volvería a encontrarse con él.

Subimos las escaleras que llevaban al bar, murmuró que su embarazo era un síntoma preciso para forjar su cuerpo como un todo explosivo, y sin levantar su tono de voz agregó que una criatura fértil, más que electrizar, impulsa geometrías dentro de surcos robados a los sueños.

Trémula, encendió con lentitud un cigarrillo que luego yo acabé de fumar.

Isadora

Te suicidaste por soportar hasta el fin la idea de nuestra vigilia.

Mi reloj y tu pescuezo envuelto, sabías que atravesar la maldita franja de terracota expulsa temibles mareas.

Remover mis escombros y construir con el resto de las piedras un nuevo movimiento.

¿Podrás convencerme de que todo no pasa de una respiración de huesos y propulsiones?

El océano nos separa de cualquier hombre en la altivez de su juventud.

Te besé pensando en esa otra mujer que atraviesa este cuerto.

Tuz zapatillas de baile son mi última morada.

Lou

Menstrué y fui receptiva pero él, enmohecido por su propio encanto, caminó en silencio durante todo el trayecto que nos llevaba hasta Fedor.

Ninguno de los dos me mira. Luces, letreros, carteles y vitrinas son fendas más claras para ellos que mi deseo de alquilar un cuerpo.

Guijarros, rejas, mecanismos sombríos de algún  difunto huésped. Esta herida femenina sobre mis pies descalzos es una partícula que será absorbida por la pregunta de la muerte.

Ahora que el sol hiela mi corazón debemos robar el látigo.

Me recomiendan impedir que mi sigilo los delate, para ellos cualquier constelación es más importante que mi ocio o que mi sueño.

Ya no no puedo escapar. Frecuento teatros, bares, cafés. Algunos hombres reparan en mi con cierta dignidad pero tienen el alma clavada en el tejido del tiempo.

Ahora están callados.

Yo, fortalecida por níveas comuniones, alimentada, fértil o esquelética, aún mantengo el aspecto de una mujer amada.

Virginia

Ella dice que nadie podrá echar a los lobos de la ciudad porque acampan a un costado de los subterráneos, amenazan a las pobres  anguilas y destellan luces rabiosas por los ojos, lo que en otras épocas hubiéramos conservado como secuelas de jade piadoso.

El espectador esta ahorcado, hojas secas cubren el palco y un soporte negro que es la cabeza de Orlando, oscila entre los focos.

El sueño es la confirmación de que todo lo que está muerto apenas atraviesa el instante de la gota de lluvia.

Si bien ella jamás estuvo habitada sino por un murciélago, muchos vinieron a verla hamacarse por última vez en su butaca vacía.

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