Onde a fragilidade se torna perversidade

Vincent_Fotor

A prisão Courtyard de Vincent Van Gogh

O Brasil está se tornando novamente presa do seu passado precário, insólito, desarticulado. E digo “novamente” porque historicamente já pagamos este preço e pelo que tudo indica caminhamos firmes para o mesmo abismo “novamente”. Falo isso olhando a partir do plano privado, individual e também do plano institucional.

É desesperador ver a fragilidade das nossas instituições para lidar com uma crise – econômica, política e social – , que cresce dia a dia, sem que nada seja feito de concreto. Ao mesmo tempo é aterrador confirmar o despreparo crítico e analítico dos brasileiros para fazerem uma leitura do momento, sem se tornarem presas fáceis dos discursos de ódio, que repetem automaticamente sem ao menos conferir a que “senhor” estão servindo.

Desta forma a sociedade brasileira bóia, à deriva, em um mar de excrementos e lama alimentada por mentiras, distorções grosseiras da realidade, se retroalimentando e intoxicando com a intolerância que excreta de si própria. E o pior sem consciência ou memória de seu passado recente, que poderia ao menos servir como água limpa, para aplacar a sede histórica que nos ajudaria a não repetir os erros já cometidos. A sociedade brasileira é cega ao olhar em direção ao passado.

O país continua prisioneiro de uma história de injustiças, uma colônia inacabada, onde permanece a ideia do degredo em seu povo e da corrupção nas suas atitudes. Os mais absurdos fins estão justificando os meios mais escabrosos. Corremos atrás de nossa  própria cola em uma atitude burra e solipsista, além de anacrônica.

Mesmo o pouco de atitude positiva, construtiva que ainda resistem, a tão exaltada resiliência dos brasileiros, estão sendo tragadas por uma imensa avalanche de (des)informação repassada de forma deliberada e desonesta. Os pés dos brasileiros que ainda desejam trabalhar, discutindo seu país de forma democrática (ou ao menos decente), estão atolados em um estado de desesperança regado todos os dias por uma nova modinha chamada “fake news”.

A sociedade brasileira vive em uma mesma casa, mas nos separamos em cômodos diferentes, até aí tudo certo, desde que se mantenham portas abertas. Mas alguns (que se acham mais espertos que os demais) estão prontos para fechar as portas, não sem antes jogar  bombas incendiárias nos cômodos vizinhos, achando que sairão ilesos ao final. Para estes irresponsáveis de plantão, oportunistas que se valem da fragilidade do momento brasileiro, e sobretudo acham que suas atitudes não terão consequências, lembro: Em 1794 um dos principais líderes da Revolução Francesa, Maximillien de Robespierre (chamado “O Incorruptível”), depois de fazer “muita” justiça com as próprias mãos, foi guilhotinado pelos próprios amigos revolucionários.

Normalmente quando perdemos a capacidade de sentar a mesa para discutirmos as diferenças, as nossas ideias e palavras tornam-se machados, estiletes, pedras ou balas, inevitavelmente o que escorrerá daí será apenas sangue.

A partir desse ponto resta apenas a perversidade. Quando é a força que define as regras do jogo…podemos ter uma certeza: o jogo está perdido, para todos. A tirania da força é cega e só compreende uma linguagem, a sua própria. Ela não respeita tampouco os tiranos, ela não tem líderes, não tem amigos, todos são consumidos ao seu redor para alimentá-la e nutri-la. Todas formas de diplomacia, de discussão, de respeito às diferenças, toda manifestação legitima e democrática estarão mutiladas e banidas. Se instala um estado autofágico.

Não quero acreditar que teremos um retrocesso tão grande no Brasil. Mas sugiro aos brasileiros que antes de escrever ou falar qualquer palavra que exprima o ódio ou a intolerância se reflita bem nas suas consequências.

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