A Ignorância é mais barulhenta

 

Soutine

Pintura “Boi Esfolado” de Chaïm Soutine. Pintor russo, de uma família de judeus ortodoxos onde a representação de imagens era proibida.

Quer saber onde reside a ignorância? Perceba onde existe mais barulho, mais polêmica, mais intransigência, que por sua vez gera mais fricção, movimento brusco, quebra-quebra, dificuldade para convergência, impossibilidade de avanço. Posições ancoradas por dogmas, verdades, tradições, ícones sagrados, rigidez intelectual e espiritual. “Ganhar no grito” este é seu slogan.

Todo este barulho causa a sensação de onipresença da ignorância ao nosso redor. As redes sociais e a tecnologia que conectam os indivíduos, potencializam de uma forma brutal esta sensação de que estamos afundados em um mar de intolerância, cegueira e obtusidade.

Mas esta percepção é ilusória, a realidade é diferente, invisível e felizmente, mesmo não se manifestando publicamente, há uma maioria significativa de pessoas que não necessitam “ganhar no grito”. Pessoas que têm suas crenças, suas opiniões bem formadas e fundamentadas, e mesmo que possam mudá-las através de uma sólida argumentação, não fazem a menor questão de impingi-las aos seus conhecidos. Pessoas que não desejam impor ideias, mas discuti-las, compartilha-las com quem se permita, realizando o jogo espontâneo que as crianças vivem em seu processo de aprendizagem.

Estou lendo “Os anjos bons da nossa natureza”, de Steven Pinker pesquisador e escritor canadense, trata-se de uma sólida argumentação contra a falsa percepção de que vivemos hoje um momento histórico mais violento do que os nossos ancestrais viveram. A imagem construída de que o passado foi melhor do que é o presente, mais tolerante, mais generoso, mais cuidadoso com a vida alheia, é falsa. O livro de Pinker, uma extensa pesquisa sobre a história da violência, dos homicídios e suas formas, além abordar a sociologia para iluminar os comportamentos e motivações, demonstra de forma sólida que a violência entre os homens tem diminuído significativamente e com regularidade na medida que o tempo passa.

Meu ponto de vista é: conservadores, reacionários, facistas, nazistas, religiosos radicais, terroristas, criminosos de todas as espécies, tentam desesperadamente manter vivas suas teses, suas crenças, suas instituições, seus hábitos de vida. Eles se debatem, gritam, discursam, levantam bandeiras aproveitando-se, ainda de uma fragilidade que resiste perturbando a sociedade como um todo: a desigualdade socioeconômica que gera insegurança e instabilidade. Se não fosse por esta fratura exposta no corpo social seu discurso estaria quase reduzido a nada.

Infelizmente a tecnologia e a globalização da informação têm fermentado estes grupos que trabalham a ignorância como matéria prima, e a radicalidade das posições como regra básica das ações. Pessoas que desejam trazer o passado para o presente. Trazer a Idade das Trevas para a posterioridade do Iluminismo. Trazer as leis de Talião para a civilidade das sociedades modernas.

Teses e afirmações como: A terra é plana, a defesa do criacionismo, a pena de morte, homossexuais podem ser curados, negros são inferiores, mulheres são frágeis e coisificáveis, a supremacia (é) branca, a morte (homicídio) é em nome de deus, todas estas ideias estão esfarelando e escorregando entre os dedos da sociedade. É claro que algumas destas ideias resistem e tentam até mesmo se travestir com novas formas, mais modernas e palatáveis, porém todas elas acabam descobertas nas suas verdadeiras intenções.

Mas de qualquer forma fazem muito barulho. Chamam a atenção, tentando penetrar sorrateiramente em nossas mentes. Criam cenários distorcidos para defender as ideias que convém aos seus arautos.

Para desgraça destes movimentos e sonhos de dominação existem as leis físicas e o tempo: Nada volta, não conseguimos caminhar um só milímetro para trás no tempo, além da entropia que permanentemente nos causa a percepção de que tudo está em constante destruição para renascer em outra forma.

O passado portanto não foi melhor do que é o presente. Suas lições positiva já estão inseridas em nossas vidas, nos basta apenas olhar para o passado para constatar sobre o que não devemos repetir.

 

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