Traço, foto, pixel ou pensamento

Collage_Fotor

Fotografias PxB de bradleypjohnson. Imagens dos neurônios de Junior Fecks.

A imagem acompanha a humanidade desde que o primeiro olhar se fez, se abriu, se construiu. A imagem era externa ao ser, percebida, captada até que em algum momento um traço foi feito sobre a areia ou a argila no chão, ou ainda sobre uma pedra com auxílio de alguma ferramenta dominada.

Neste momento surge a imagem como meio de expressão, emancipada da natureza, nada biológica, totalmente psicológica, particularizada, singular. As imagens se desenvolvem entre o “id” e o “ego”. Brotam de profundezas desconhecidas, aspiram por uma superfície necessária e desejada.

Produzimos estas imagens, que poderíamos chamar de “culturais”, como interfaces originais entre nosso ser e as imagens apreendidas por nosso olhar, captadas do mundo que nos cerca. Imagens produzidas pela mão humana aparecem sobre um plano transparente, como um “filtro” entre aquele que olha e o objeto olhado. São como grandes vidros entre o humano e o ambiente circundante.

Fomos além do traço, dos requintes da pintura, da democratização da imagem com o múltiplo através das gravuras, criamos o equipamento de reprodução do visível: a fotografia, que inicia com o vidro e a película fotossensível, tornando-se digital por meio do pixel.

Em 1999, no auge da indústria das câmeras de filmes fotográficos, os consumidores geraram cerca de 80 bilhões de fotos (segundo números da Kodak). Hoje estima-se que algo entorno de 3 trilhões, ou mais, de fotos circulam por ano entre os mais de 5 bilhões de usuários de smartphones no mundo. Apenas levando-se em consideração as redes sociais como Facebook, WhatsApp, Snapchat, Instagram, iMessage da Apple e WeChat, além é claro de dezenas de aplicativos menores com muitos milhares de usuários. Destes números não fazem parte aqueles que fotografam com câmeras digitais apenas para registrar seus momentos ou ainda imprimir em papel.

Quando penso na ideia da “imortalização do efêmero” (que Walter Benjamin, define, nas “Passagens de Paris”, como sendo o mais inquietante dos modismos) é a digitalização do olhar que me vem a cabeça, por sua presença crescente nas sociedades atuais (sem exceções, que quando existe é pela força que se mantém). Esta presença hoje é quase hegemônica e muito poderosa.

Estes trilhões de imagens viajando de retina em retina, ocupando parte das nossas horas, preenchendo as vidas com imagens conhecidas e algumas completamente exóticas, interligam conhecidos e desconhecidos. Este volume crescerá indiscutivelmente. Muitos já trabalham profissionalmente, para si ou para empresas, através destas imagens. Outros apenas se entretém com elas, embora dispensem cada dia mais tempo para produzi-las ou consumi-las.

A partir daqui podemos afirmar que nossa memória não será construída apenas como resultado do que experienciamos, mas nascerá do que vemos em infinitos lapsos sequenciais, interligados por uma articulação, sobreposição ou justaposição aparentemente sem qualquer nexo. Trilhões de imagens extremamente distantes na sua imanência, mas visceralmente próximas na essência deste mundo construído de forma idealista e superficial.

Mas não desejo fazer juízo de valor utilizando a palavra “superficial”, não se trata de moralismo, mas de uma constatação sobre o conteúdo frágil que vem sendo compartilhado nas redes e a forma dispersiva como isso vem acontecendo. Não podemos esquecer que este universo da imagem estática (foto) ou em movimento (vídeo) está em seu nascedouro, apenas mostrando suas primeiras nuances. Estamos testemunhando um assombroso organismo crescendo a nossa volta. Um corpo feito de imagens interligadas que emana de todos nós, a cada segundo, e se projeta em nossa atmosfera, retroalimentando a dependência da viciante imagem sedutora.

As imagens efêmeras, que do meu ponto de vista já estão “imortalizadas”, são feitas, em uma visão simplista, para serem vistas em segundos ao correr da timeline. Mas com certeza elas não são feitas para o esquecimento, justamente porque estão e estarão ligadas a trilhões de outras. Este é o corpo, assustador em seu volume, de que falamos acima. Ao serem tragadas, estas imagens, se ligam a outras em um gigantesco subconsciente formado muitos trilhões de pixels.

Minha questão é: As potências da imagem e do texto digitais, inexoravelmente não se distinguem mais, da construção do pensamento e da memória. Em sua estrutura atômica as sinapses estão sendo tomadas por um fluxo permanente de imagens em pixels que se sobrepõe e justapõe aos nossos sentidos alimentando a alma (consciência e subconsciência).

O que nascerá deste poderoso impacto do mundo digital sobre nossas mentes? Não fazemos ideia, mas certamente teremos um caminho duro e adverso para torná-lo sempre melhor e mais positivo para nós mesmos, começando por nosso olhar.

 

 

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