Irreversível

Irreversible_Fotor

A produção cinematográfica francesa tem me decepcionado ultimamente. Filmes doces, açucarados, histórias com belas cenas em Paris ou da campagne francesa auxiliam o turismo e vendem o espírito romântico construído pelos franceses, embalados por vinho, pão e flores. Nada mais…

Em 2003 assisti a última película francesa que me sacudiu visceralmente, como acontecia com as imagens de François Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jean Renoir, Alain Resnais, Éric Rohmer, René Clair ou Louis Malle.

Estou falando do filme “Irreversível” de Gaspar Noé. Todas as resenhas que li sobre esta película, destacam sua violência e a colocam na prateleira das obras perturbadoras (seja lá o que isso signifique). Me parece que a maioria dos expectadores (e vi muitos levantarem e saírem logo no inicio da projeção) acabam congelando em sua retina duas cenas: a primeira onde ocorre um assassinato com uso de um extintor de incêndio, utilizado para estraçalhar a cabeça de um personagem e indiscutivelmente a segunda cena e a mais forte do filme, com duração de 11 minutos, um estupro em uma passagem subterrânea de Paris. São imagens duras, não há dúvida, até porque ambas muito bem feitas. Mas seguramente o filme não se reduz a estas cenas, tampouco à “violência”.

Uma obra de arte é muito potencializada quando consegue alinhar forma e conteúdo, como se alinham os planetas. Isto em qualquer forma de arte, seja visual, música, teatro ou cinema. Quando aquilo que o artista deseja dizer, seu conteúdo, sua carga expressiva é “vestida” com a forma adequada, com o elemento justo, com a matéria, a casca, a pele que veste perfeitamente ao discurso, o impacto sobre o fruidor é infinitamente maior.

Em Irreversível essa conjunção entre forma e conteúdo me parece quase perfeita e explico o porquê.

O filme aborda e interliga questões prosaicas, cotidianas, de uma superfície visível como: relacionamento, sexo, vaidade, fidelidade, amizade, amor, com questões quase intocáveis como: prostituição, perversão, criminalidade, submundo, ódio. Em Irreversível estes dois planos são unidos por fios invisíveis, realidades que quase se tocam, se roçam todos os dias, e estão prontas a agirem uma na outra em algum momento. Alguns acasos, encontros fortuitos, lapsos, confundem estes caminhos e fazem suas águas se misturarem. Nestes momentos somos arrancados de “nossa realidade” e jogados em um redemoinho sem controle. O filme expõe estas realidades convivendo lado a lado, simultâneas, próximas onde suas cores, seus aromas, suas texturas quase de confundem.

Com quais formas o filme nos passa estas mensagens?

Primeiro o roteiro: não se trata de um roteiro construído como flashback convencional. O roteiro é “desestruturado”, é “fragmentado”, e remontado de forma não linear, não temporal. Ele se fecha ao final do filme com uma suavidade incrível….é realmente como se você estivesse chegando ao paraíso, depois de ter passado pelo inferno e o purgatório de Dante. Nas cenas finais você tem a sensação de estar olhando para o passado de uma vida conhecida, onde os detalhes antes desconexos, agora se encaixam com todos os sentidos e nexos antes perdidos.

Não conseguimos nos acomodar na cadeira da sala de projeção um só segundo. Através de uma câmera sempre em movimento circular, quase hipnótico, que nos leva como se fora um turbilhão, um redemoinho gigantesco nos tragando e envolvendo de forma irreversível, como a própria vida faria. Este movimento é acompanhado por um som de fundo que me remeteu a um som abafado, corporal, gutural é um som interno e profundo. A soma deste movimento de câmera e o som que o acompanha realmente nos causa náuseas, tontura. Trata-se de uma vida que se esvai, tragada, a caminho de um poço existencial.

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O movimento circular das imagens, como acontece com a nossa própria vida também encerra o filme. Toda a história de Irreversível e a forma de contá-la é circular: o sexo que faz um filho, também estupra, a vida gerada também é retirada de forma brutal, o amor se transforma em ódio, a vida gerada provoca a morte.

O final é belo, delicado, preciso e aqueles que deixaram a sala no meio do filme, perderam uma obra consistente, inteligente e extremamente humana.

 

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