Ouvintes, leitores, telespectadores, internautas, somos todos idiotas???

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Começamos com a transmissão oral do conhecimento: histórias, contos, poemas, cantos, rituais que através dos gestos, da fala, da expressão corporal falavam ao coração e às mentes daqueles que viam e escutavam. Rituais tribais, grupos reduzidos de pessoas que tratavam de manter sua história viva através das gerações, estabelecendo (inconscientemente) o que hoje chamamos de tradição.

É impossível dizer quantos dos que ouviam as histórias as apreendiam profundamente. Quanto do seu significado era transformador, e compreendido de forma ampla, permitindo a sequência da tradição. Uma coisa é certa: poucos transmitiam e muitos apenas absorviam. Provavelmente esse foi o motivo pelo qual a tradição oral se diluiu no tecido social, sendo substituída por diversas formas de transmissão. Todas fixadas na matéria (a busca por uma perenidade). Seja através de uma pintura, uma gravação sobre pedra, argila, bronze, madeira, ou mesmo a escrita sobre o papel.

Com o aparecimento da tipografia e consequentemente do livro reproduzido em escala, o homem moderno (afinal o renascimento é o berço da modernidade) ganha a sua ferramenta mais democrática. Apenas nos Estados Unidos são publicados mais de 300 mil títulos por ano (entre novos e reedições).

Mas o que isso significa? Não tenho dúvida que os livros espraiam informação e conhecimento. Capilarizando conhecimentos, ampliando a visão sobre o mundo e estimulando a imaginação de milhões de pessoas.

Mas com certeza não significou diminuição dos preconceitos, violência, intolerância. Um conhecimento oral, um conhecimento transmitido através de livro, ou mesmo as informações repassadas hoje através da web necessitam, de no mínimo, dois neurônios para fazer a sinapse, um emissor e o outro receptor. Hitler leu Schopenhauer, leu também e mais tarde minimizou a importância de Nietzsche em sua formação. Certamente nem todos os que leram os filósofos alemães optaram por exterminar o que quer que seja. Quando alguém lê a Bíblia ou o Alcorão e mata em seu nome, significa que não basta apenas leitura para sermos alguém melhor.

Quantos gregos entendiam o que Platão falava em suas andanças? Quantos indianos ou mesmo pessoas de outras nacionalidades absorveram profundamente o que Gandhi pregou?

A televisão já foi e continua sendo acusada de “idiotizar” os seus espectadores, manipulando-lhes a vontade, induzindo-os à compra de qualquer produto, assim que atingidos por um comercial promocional.

Umberto Eco antes de morrer vaticinou: “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. Sobre esse conceito pretensioso e míope de Eco, não encontro diferença alguma entre um “imbecil” em um bar e um deles falando através das redes. Tampouco me parece melhor para o mundo mandar alguém “calar a boca”….mesmo diante de uma asneira expressa.

Agora, Franklin Foer, um crítico das redes sociais, que lançará no Brasil este ano, “World without mind” (literalmente: “Mundo sem mente”) levanta a teoria dos algoritmos como os vilões do consumo. Da mesma forma como acontecia com a televisão: Um sujeito “desarmado” sentado em sua confortável sala, assistindo sua TV e somente absorvendo os impactos das promoções imperdíveis. Com as novas tecnologias são os famigerados algoritmos que colocam, em destaque, na sua timeline os produtos que você “deve” comprar.

Discutir estas questões a partir de teorias conspiratórias e apocalípticas sobre a hegemonia paralisante, idiotizante, controladora do poder econômico travestido de televisões, jornal, ou mesmo rede social, não me parecem ser a melhor atitude diante da realidade.

Aqueles que entendem o poder dos livros, das mídias convencionais como TV, rádio e jornal, ou mesmo agora com a web e suas redes sociais, como disseminadores de informação e conhecimento, devem se dedicar a melhorar a análise crítica dos seus usuários.

Enquanto um grande número de pessoas não conseguir construir de forma consistente seu próprio raciocínio, seja para se posicionar diante de um conceito filosófico, sociológico, econômico, político, ou mesmo para consumir um produto necessário ou supérfluo, recebido via analógica ou digital, penso que a realidade aparente sempre parecerá mais “imbecil” do que “inteligente”.

Lembrando que o problema não está nos veículos ou tecnologias que nos trazem informações ou nos permitem a expressão das nossas ideias, mas sim da visão medíocre que se tem deste mundo.

A crítica às “novidades” é velha e ultrapassada, mas resiste a cada novo modismo, como uma avalanche de frases intransigentes e intolerantes. Existe um desejo incontrolável, entre algumas pessoas, (normalmente mais conservadoras) na manutenção do status quo, na imobilidade e permanência do conquistado, daquilo que foi dominado, que é conhecido.

Para todos nós que vivemos esta época de posições extremas, de tensões resistentes, e de uma velocidade espantosa, daquilo que parecem mudanças, deixo duas frases de Walter Benjamin: “Nenhum tipo de imortalização é mais perturbador quanto o do efêmero” e “O eterno, de qualquer modo é, antes, um drapeado de vestido do que uma ideia”

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