A história de um nascimento

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Bebeto e Onor. Uma visita ao território dos aromas ácidos. Oficina de Gravura.

A história de todo e qualquer nascimento sempre é precedida por um prólogo. Portanto vamos inicialmente ao prólogo.

Em 1981 o artista plástico José Silveira D’Ávila (Florianópolis SC 1924 – Rio de Janeiro RJ 1985), era diretor do MASC – Museu de Arte de Santa Catarina. O MASC ocupava o andar térreo do prédio da Alfandega, no centro de Florianópolis. D’Ávila que foi pintor, desenhista, gravador, trabalhou ao lado de Carlos Oswald, no Rio de Janeiro na Escola Nacional de Belas Artes, ali montou uma oficina de gravura para difundir a técnica no país. Quando retornou a Florianópolis, na década de 80, da mesma forma, adquiriu duas prensas para iniciar a Oficina de Gravura no MASC, onde se poderia trabalhar com a Litografia (prensa e pedras adquiridas de Antonio Grosso, gravador carioca), a Xilogravura e o metal Metal (prensa doada por Augusto Rodrigues, gravador carioca). Assim, de uma forma precária e enjambrada, iniciou a Oficina de Gravura do MASC, para difundir e ampliar o conhecimento da gravura em Santa Catarina.

Neste período eu estava retornando, também da Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, e fui convidado por Jayro Schmidt, para iniciarmos um trabalho com a gravura naquele espaço, a pedido de D’Ávila. No mesmo ano Antonio Grosso veio a Florianópolis dar algumas aulas sobre a técnica da Litografia, e depois dele mais alguns outros artistas brasileiros montaram exposições com suas gravuras, além de mostrar e falar um pouco sobre as diversas técnicas e a alquimia do ofício de gravar. Para se ter uma ideia da precariedade em que trabalhávamos, nosso tanque para o polimento das pedras era uma caixa d’água improvisada. Mas naquele lugar, nos corredores, entre os grandes arcos do prédio da Alfândega iniciou-se um movimento que se desdobraria atingindo um grande número de artistas com trabalho já consolidado e jovens contagiados com uma linguagem intimista, mas com forte caráter coletivo. Quem trabalhava com maior frequência, além de Jayro Schmidt e eu, eram Pedro Pires e Sérgio Bonson, sempre acompanhados de perto pelos movimentos corporais dos poetas Cleber Teixera e Daniel Ballester. Mas naquele espaço também fizeram curso com Antonio Grosso vários artistas de Florianópolis. Outros cometas passaram e deixaram suas marcas como Alberto Cedron, artista argentino.

Em 1983 chegamos ao nascimento das Oficinas como as conhecemos hoje. A Oficina de Gravura, juntamente com o MASC ganham um novo espaço no CIC – Centro integrado de Cultura. O espaço mais adequado, mas ainda sem muitos equipamentos, permitiria um trabalho mais consistente e ampliado. Agora, não apenas a Oficina de Gravura, mas várias salas, que em futuro breve, seriam as Oficinas de Arte do CIC.

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Oficina de Gravura do CIC

De 1983 até 1987 apenas a Oficina de Gravura desenvolveu um trabalho significativo, as demais oficinas não eram permanentes e tinham muitas dificuldades para se estabilizar e consolidar. Neste período a Oficina de Gravura foi marcadas por enorme  liberdade criativa e inquietação que contagiou um número muito significativo de jovens artistas, alguns por ali passaram e muitos ficaram.

Neste período conheci e convidei para trabalhar em um espaço da sala Rafael João Rodrigues (artista com conhecimentos de química) que passou a produzir materiais para utilização em arte como: tintas para pintura, bastões litográficos, fundo para tela, bastões para desenho, têmperas, gomas, emulsões, etc. A Oficina de Materiais, como ficou conhecida posteriormente, estimulava o processo criativo de vários artistas que por ali produziam. Naquele período também começou a trabalhar comigo Carlos Roberto do Nascimento, Bebeto, que aprendeu inicialmente a técnica litográfica, e coordena a Oficina de Gravura com suas varias técnicas até hoje.

Naquele espaço caótico se produzia como tempestade elétrica (e oficialmente deveria ser apenas gravura), mas ali se desenvolveu materiais, se fez muita gravura (Litografia, Xilogravura, Serigrafia, Monotipia, Gravura em Metal), pinturas foram produzidas, e até mesmo algumas esculturas, além da impressão de álbuns de arte ou qualquer outra coisa que pudesse passar pela cabeça de um frequentador. Espaço por onde passou um número significativo de pessoas, e não as citarei porque com certeza esquecerei muitos nomes. Seria muito interessante fazer um levantamento completo dos artistas, professores ou frequentadores que já passaram pelas Oficinas do Centro Integrado de Cultura.

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Oficina de Gravura do CIC

 

A partir de 1986 assumi a direção geral das oficinas de arte, e em 1987 chegou em Florianópolis o artista Hugo Mund Junior, contratado e com a incumbência de preparar um planejamento para as oficinas como um todo. A partir daí as Oficinas do Centro Integrado de Cultura, reestruturadas e com maior solidez, tinham como ponto de partida pedagógico as Oficinas Base: Cor, Volume e Linha, além das oficinas permanentes de Gravura, Escultura, Pintura e Cerâmica. Um forno para cerâmica de grandes formatos foi construído em um dos jardins internos das Oficinas. A sala de serigrafia foi montada para impressão de álbuns de arte, além de um setor de comunicação visual onde se desenvolviam projetos para o CIC e para as Oficinas. Neste espaço foi desenvolvido um projeto com a XEROX do Brasil que colocou à disposição uma copiadora para desenvolvimento de projetos gráficos. Em algum momento na Oficina de Pintura foi montado um instrumento sonoro, com peças de cerâmica, madeira, metal, fios e cordas, onde alguns músicos, que também davam aulas em outros espaços do CIC, faziam música.

O projeto global das Oficinas também propôs as chamadas Oficinas Temporárias e nestes espaços recebemos nomes como Danúbio Gonçalves (gravador gaúcho), Fayga Ostrower (polonesa que residia no Rio de Janeiro), Elke Hering que permaneceu nas Oficinas para realizar uma escultura para um dos jardins internos do CIC, enfim uma série de artistas catarinenses, brasileiros e alguns estrangeiros passaram pelas Oficinas fazendo vibrar ainda mais um ambiente que já respirava criatividade, interação e produção….muita produção.

As Oficinas tinham também como proposta reproduzir nossa experiência em outras regiões catarinenses. Trazíamos artistas de outras cidades para que, no seu retorno, ele transmitisse aos artistas ou estudantes do seu município a vivência que havia tido nas Oficinas. Uma maneira de reverberar o conhecimento e a experiência individual para um número maior de pessoas, democratizando e qualificando o espaço público.

Em 1990 saí do país, me desligando do setor público, mas as Oficinas de Arte do CIC, especialmente a Oficina de Gravura, a qual tenho uma ligação especial, permanecem lá, como um espaço de possibilidades, para quem deseja se envolver com arte.

Um espaço público, com 36 anos, sempre aguardando que as pessoas o ocupem, o invadam, transformem seu território, seu pensar e seu fazer, sacudam suas poeiras lançando novas luzes para o passado e para o futuro. Assim deve ser o espaço dedicado a arte.

Fotos de Sonia Fernandes

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