Vinho, pão e arte

caravaggio

Michelangelo Merisi de Caravaggio – Baco – galeria de Uffizi

A arte foi produzida, quase sempre, na periferia da sociedade, nos seus becos (daí a imagem do artista ligada ao que é marginal). Mesmo nos períodos onde a arte gozou de extrema importância e fama entre ricos e poderosos, a relação da sociedade com os artistas (ou mesmo com algumas de suas obras) sempre foi conflituosa e repleta de intrigas e perseguições. Mas também é inequívoco que a arte exerceu e ainda exerce um fascínio hipnótico, causando embriaguez a alguns e uma verdadeira ira em outros.

Não seria excessivo afirmar que poderíamos contar a história da arte por um viés criminal. Perseguições, assassinatos, prisões, suicídios, excomunhões, inveja, traição, injustiças, enfim seria uma longa lista, toda ela envolvida em um cenário de pobreza, tragédia, miséria e dor. Por que o campo da arte gera tanto ódio?

Na história humana, dois alimentos nos acompanham de longa data, o pão e o vinho. Estes alimentos, além das relações históricas e gastronômicas com egípcios, gregos e posteriormente os romanos (além de muitos outros povos), estão também na base da simbologia da tradição judaico-cristã, reforçando sua presença no imaginário de mulheres e homens até os dias de hoje.

Mas deve-se fazer uma distinção importante entre os dois alimentos, o que talvez nos dê um caminho para responder à pergunta inicial.

O “Pão” é o alimento do corpo, nos mantém com energia para o trabalho e para a vida. O pão fortalece o corpo e enfraquece o espírito. O pão nos faz iguais.

O “Vinho” é o alimento do espírito, nos estimula a inquietude para o sonho e para a morte. O vinho fortalece o espírito e enfraquece o corpo. O vinho nos faz diferentes.

A “Arte” é filha do “Vinho” do deus Dionísio (Gregos) ou Baco (Romanos) e seu elemento é o calor que corre em nossas veias ou se espalha em nossos sacrifícios. Ela deseja atingir o céu ou o inferno, jamais manter seus pés confortavelmente sobre a terra. A arte e o vinho nos retiram da centralidade de nossa vida. Quando os vapores do álcool se elevam, junto com eles, evola-se também nosso espírito. A razão vai além da racionalidade e as emoções mergulham aquém da consciência. O caminho da arte e do vinho é tortuoso, desregrado em sua ética, flutua como um barco ébrio em um rio de sonoridades.

Nenhuma obra de arte é óbvia em sua expressão, não há objetivo em seu trajeto, não possui apenas uma razão, não tem mesmo origem conhecida, e seu destino é totalmente incerto. Aqui o instinto transborda e ilumina nossa sexualidade, transmuta a pele em ouro, o espírito tem sua cadeira (na sombra) no canto do quarto. A cegueira, a surdez, a demência são reveladores e iluminam.

Um ofício tal, não poderia trazer paz e quietude ao ser. O vinho e a arte nos olham profundamente de fora para dentro. Nos perturbam os sentidos, incitam à volúpia, desequilibram as verdades, confundem os padrões. A angustia psíquica é o que nos faz caminhar, buscar e desejar. Todo o resto é imobilidade, é acomodação.

Somos reconhecidos ou amados por aquilo que nos diferencia, por nossas singularidades, inquietações, por nossas manias e até mesmo por nossas loucuras. Jamais por passividade, inércia, omissão ou apatia.

Este é o magnetismo da arte, estes são os vapores do vinho, que encantam e seduzem àqueles que possuem um espírito maior do que seu corpo.

Aos que, se alimentam apenas de “Pão”, resta ranger os dentes e se contorcer dentro do próprio corpo, onde seu espírito permanece escondido, destruindo o que estiver ao alcance da mão.

Obs: O pintor Caravaggio carregava consigo uma adaga, em seu cabo estava gravada a frase: nec spe nec metu.  (sem esperança nem medo).

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Jean-François Millet – Angelus – Musée d’Orsay

 

3 comentários sobre “Vinho, pão e arte

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