A pureza da contradição

Pipe_Fotor

“Isto não é um cachimbo” pintura de René Magritte

Viver o nosso tempo é maravilhoso, intoxicante e desafiador. Na perspectiva da multiplicidade, das diferenças, da fragmentação, da segmentação, dos potenciais e oportunidades, nosso mundo tornou-se essencialmente singular quando confrontado com qualquer outra época. Não temos mais um conceito dominante, seja em que área for: a moda é tribal, na arte não há mais movimentos hegemônicos, as ciências sejam as exatas ou humanas são questionadas seguidamente por uma infinidade de novas teorias e argumentações. Os comportamentos se transformam diariamente ao sabor de novas tendências.

Como nos revela o filósofo francês Jacques Derrida, a perspectiva dos conceitos não é mais estabelecida a partir do centro, perdemos nossa centralidade e portanto desmoronam lentamente os castelos das nossas instituições mais conservadoras e sólidas. A hierarquia está sendo diluída em novas relações mais honestas, transparentes e respeitosas, seja no campo familiar, social ou profissional.

Este novo mundo – com um número de pessoas infinitamente maior do que em qualquer outra época – tem provocado um grande estresse e angústia psicológica na maioria dos seus indivíduos, porque mexeu justamente nas bases mais sólidas (ao menos eram consideradas com tal), nos deixou mais inseguros e com a clara sensação de estarmos perdidos, sem chão. É como se não entendêssemos mais nada.

Neste cenário instável e pulverizado uma coisa emerge com muita força e visibilidade: As contradições.

Conservadores que afirmam, na sua casa, que “bandido bom é bandido morto”, esbravejam contra os direitos humanos; acusam os atos terroristas como sendo covardes e a escória da sociedade; porém quando desejam atacar àqueles que através de uma exposição de arte ousam discutir um assunto universal como a sexualidade, então esse mesmo conservador diz: “Caso acontecesse isso em países árabes, estes “artistas” seriam linchados em praça pública. Se ocorresse no mundo judaico, com desenhos exibindo símbolos fálicos com objetos sagrados seriam condenados à prisão perpétua.” Ou seja a violência que eu condeno na minha casa justifica, em outros casos, a violência na casa do vizinho, quando isso me interessa. “Aqui” essa violência é repugnante e abjeta, “Lá” ela é corretiva e purificante.

Os conservadores defendem a solidariedade cristã. Os progressistas defendem com ardor a fraternidade universal, mas quando são os imigrantes a romperem as fronteiras das nossa cidades ou países, a ocuparem os empregos que poderiam ser nossos, ou mesmo trazerem suas culturas e hábitos estranhos para junto de nós, então a solidariedade e a fraternidade se vestem de intolerância e eles “os nossos irmãos” transformam-se em estorvo.

Da mesma forma pessoas que se consideram libertárias ou na vanguarda do comportamento, em nossos dias, tem constantemente se defrontado com situações onde fica difícil manter um posicionamento coerente com suas crenças. Ou será que são suas crenças, que pulverizadas e multiplicadas são incoerente entre si?

A minoria gay, que até agora foi perseguida por muitas instituições conservadoras, agora procura as igrejas (uma das instituições que mais perseguiram homossexuais) para realizarem os seus casamentos. Da mesma forma homens e mulheres combativos da esquerda radical, que abriram mão das suas crenças religiosas por entenderem se tratar do “ópio do povo”, ao nascimento do primeiro filho, tem como primeira providência batizá-lo na “santa madre igreja”.

Não entendo que estas contradições – e cito apenas estas poucas, embora o número seja imenso – representem um retrocesso nos comportamentos. Minha opinião é que esta pulverização e diluição das crenças mais arraigadas poderá resultar em uma sociedade mais igualitária, já que: “se percebo as minhas contradições posso também perceber a do outro mais facilmente”.

Minha percepção é que estão sendo diluídas as crenças mais radicais, no grande caldeirão da sociedade contemporânea, de onde poderá surgir a alteridade como marca de um novo tempo.

 

2 comentários sobre “A pureza da contradição

  1. …sera que estamos diante das ou de uma besta cósmica apocaliptística sangrando ,se assim for sera que sera sua morte ou um especie de renascimento assim como faz o capital e o povo.De tantos remendo talvez ela esteja pedindo para um fim…

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