Brasil hipócrita

magritte_Fotor

Pintura de René Magritte

Algumas semanas atrás escrevi sobre o Brasil pornográfico. Hoje destaco mais uma característica de um Brasil que tem se revelado repleto de idiossincrasias e nuances não detectadas por nossos sociólogos, cientistas políticos, enfim especialistas de diversas áreas do conhecimento humano. Se eu estivesse errado não haveria tanto espanto e assombração diante de fatos, estatísticas e posicionamentos extremos que deságuam pela TV nas salas das famílias brasileiras (que diga-se de passagem, felizmente, já não são mais as mesmas).

Se estou sendo injusto com os especialistas brasileiros, isto ocorre porque estão fechados em suas salas nas Universidades e Instituições de Pesquisa, sem nenhum contato com a vida triste aqui fora.

O corporativismo é um dos grandes males do nosso tempo e invariavelmente está na base da impossibilidade de alcançarmos uma maior justiça social. No Brasil (que sempre desenvolve sua própria fórmula, muito melhor e mais eficiente que a dos demais) temos um corporativismo em camadas, quase um palimpsesto do poder: primeiro o corporativismo familiar – eu e minha família – este é o corporativismo mais básico na sociedade, protegido e estimulado por dogmas religiosos e com as bênçãos das igrejas de uma forma geral. Na sequência temos  uma cadeia de corporações (das pequenas às gigantescas) que se seguem, sejam sociais, profissionais, benemerentes, políticas, criminosa e por aí vai. Lembro que em outros países o corporativismo também exerce seu efeito nocivo sobre a sociedade, em maior ou menor grau, conforme a força regulatória dos governos, portanto por aqui no Brasil sua ação é de potência máxima.

Recentemente foram inventados, em nosso país,  dois novos tipos de corporativismo, mais especificamente a partir de 2014. O corporativismo do “nós” e o corporativismo do “eles” (este evento demoníaco poderia chamar-se pois: “Dois pesos. Duas medidas”).

E todas as instituições brasileiras estão sendo pressionadas a optarem, nos mais variados casos, a se posicionarem com esta perspectiva: por exemplo temos a polícia, o ministério público, a justiça, que quando agem a favor do “nós” é perfeita, tem credibilidade, é praticamente a salvadora da pátria…..já quando ela julga, prende, ou acusa alguém que faz parte da corporação do “nós”, então trata-se de abuso de autoridade, excesso, ou espetáculo. Quando a imprensa toma parte acusando (mesmo que incorretamente) alguém que pertença a corporação do “eles”, ela está correta, é imparcial, está cumprindo sua função ao denunciar as mazela do país….já quando ela ataca alguém do nosso “time”, trata-se de perseguição, de imprensa comprada, ou com interesses escusos.

E o mais patético e doentio é que em muitos casos a situação é exatamente a mesma, ou muito semelhante.

O problema deste imenso jogo de futebol é que as instituições (que já não são lá muito sólidas) estão paralisadas diante de situações semelhantes com decisões diferentes, de contradições expostas na vitrine do executivo, legislativo ou judiciário, ou mesmo no campo das associações empresariais e organizações sociais. Fraturas expostas que somente revelam e detalham nossas fraquezas, fragilidades e debilidades.

A hipocrisia que contaminou ambos os times, tomando conta do país irá fatalmente nos levar a um beco sem saida, estamos lentamente construindo nossa própria armadilha e o pior é que permanecemos dentro dela….caminhamos para um engessamento das instituições, para a perversão automática do nosso fazer, infeccionando os nosso pensamentos e atos.

Não estamos vivendo uma democracia, como tantos gostam de afirmar. Vivemos uma tirania, tirania esquizofrênica, porque hoje temos duas personalidades. Duas personalidades que representam a mesma moeda, parecidas, irmãs gêmeas em sua ignorância, em seu radicalismo, em intolerância, em preconceito, dois grupos que se acham superiores ao outro, mas que são siameses e idênticos em sua inferioridade.

 

3 comentários sobre “Brasil hipócrita

  1. Es interesante la historia etimológica de esa palabra y que está vinculada con el registro de enmascaramiento de los antiguos actores griegos. América latina
    toda se esta “hipocritaizando” peligrosamente, sobretodo a partir de la mediocre dirigencia política que rige los destinos sociales, económicos y culturales en los últimos tiempos.

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    • Sou otimista…quero crer que esta nova onda conservadora que assola parte do mundo trata-se de um último suspiro….Os conservadores foram hegemônicos até o final da II Guerra….perderam espaço para um discurso mais amplo, mais libertário, menos religioso….agora se debatem desesperadamente para ocupar espaço. O que me incomoda, meu irmão, é ver pessoas que se dizem na “vanguarda”, pessoas consideradas “abertas”…agindo, em nome da liberdade, da mesma maneira conservadora e hipócrita….

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