O escândalo para baixo do tapete

banksy_Fotor

Graffiti de Banksy, graffiteiro, pintor, ativista político e diretor de cinema britânico

Vamos aos números, eu não gosto deles ou melhor, apenas deles (porque quando apenas os números falam trata-se de uma tecnicidade), mas vou usa-los já que a maioria das pessoas têm por hábito embasar suas decisões e crenças nos números. Afinal a frase que estas pessoas usam é: contra os números não há argumento.

São Paulo registra 1 assassinato de mulher a cada 4 dias e 63% das vitimas morrem em casa.

Uma mulher é estuprada a cada 11 minutos no Brasil. Mas segundo especialistas este número pode ser até 10 vezes maior, chegando a meio milhão de mulheres que sofreram algum tipo de violência sexual ao ano.

Agora pasmem, 70% dos casos citados acima são crianças ou adolescentes e a grande maioria destes casos acontece dentro de casa, ou tem a participação direta de parentes, namorados ou amigos.

Com relação ao gênero: o casamento entre pessoas do mesmo sexo cresceu 52% em dois anos, enquanto os casamentos entre pessoas de sexos diferentes cresceu 2,7%. Contudo é impressionante o número de pessoas assumindo sua sexualidade, seja qual for, com cada vez mais segurança e liberdade, independentemente dos contratos formais de casamento ou aceitação social.

Sobre o preconceito racial no Brasil, também temos nossa tragédia particular: a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos recebeu 137.516 denúncias de violações de direitos humanos em 2015, uma média de 376 registros por dia, revelando que as principais vítimas de violações de direitos no país são a população negra, mulheres e pessoas de 18 a 30 anos de idade. Além do que de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras.

Portanto minha pergunta é: Por que – com estes números na nossa frente como uma fratura exposta – as vozes conservadoras (que vão desde vozes políticas no congresso nacional, passando por jornalistas reacionários, religiosos de todas as ordens, até os fanáticos das redes anti-sociais) não querem discutir estes assuntos que estão para lá de consolidados no Brasil????

No caso escandaloso da violência contra crianças, mulheres, negros, homossexuais, etc. o que pretende a sociedade brasileira? Fechar os olhos? Não acreditar nos números? Entender como uma tragédia “natural” de uma sociedade que perdeu os seus valores? Ou entregar a situação nas mãos de Deus porque o Brasil não tem jeito?

Já no caso da discussão de gênero, das grandes mudanças de comportamento o que está fazendo a sociedade brasileira? Apenas rejeitando o fato como algo que não é natural? Mantendo viva a dor daqueles que sofrem com o preconceito? Tentando reverter as mudanças através da força e da intimidação? Ou mesmo tentando uma cura através de pseudo-religiões?

Christo e Jeanne-Claude_Fotor

Obra de Christo e Jeanne-Claude

Por que os conservadores ficaram tão histéricos, nas suas tribunas, com a exposição no Santander Cultural –  “Querrmuseu – cartografias da diferença na arte brasileira”? Quando deveriam ficar histéricos é com os números vergonhosos que o Brasil acumula? Por que uma exposição de arte incomoda tanto, quando o incomodo deveria vir das nossas estatísticas?

O Brasil precisa crescer, discutir exaustivamente, não apenas através de exposições de arte, que servem apenas para “sacudir” a sociedade entorpecida por seu dia a dia massacrante, mas em todos os âmbitos e segmentos da sociedade.

O pior que podemos fazer é jogar os desafios, mudanças e problemas para baixo do tapete. Isso não é uma atitude inteligente. Encobrir ou fantasiar a realidade não devolve a dignidade de pessoas que são assediadas moral ou sexualmente. Varrer para baixo do tapete não esconde o sangue das crianças violentadas que escorrem dos jornais e noticiários diariamente no Brasil.

Para aqueles que acham que uma exposição de arte poderia chocar uma criança ou influenciar um adolescente, tenham certeza que a violência “real” sofrida por milhares de crianças brasileiras é o que verdadeiramente se configura uma tragédia.

Quem poderia me mostrar na exposição do Santander uma imagem mais violenta, desprezível, dantesca do que um estupro coletivo?

Esta brutal realidade deveria causar histeria (na sociedade) todos os dias até que os números brasileiros desaparecessem.

Um texto crítico que vale a pena ler: Jonathan Swift – Modesta Proposta.

 

Um comentário sobre “O escândalo para baixo do tapete

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