Quando a luz se espalha

Queima livros a menina que roubava livros_Fotor

Nazistas fazem fogueira com livros em cena de filme.

A exposição cancelada pelo Santander Cultural “Querrmuseu – cartografias da diferença na arte brasileira” é um daqueles momentos em que a claridade se faz maior. O ambiente é iluminado, muitos disfarces se dissolvem, os ratos saem dos porões, os covardes se revelam diante de uma decisão a ser tomada. A ignorância cresce alimentada por “uma verdade”. E o resultado? Uma iluminada, porém miserável visão da intolerância se espalhando lentamente por espaços públicos e privados em nossa sociedade.

Os atores: O curador, O Banco e o Público (que se divide em vários….começando com os possessos, passando por aqueles que se interessam por arte, até aqueles que estão querendo entender, até agora, o que está acontecendo). Mas não vou me concentrar nos “atores” porque estes foram dissecados brilhantemente por Sheila Leirner no belo e preciso post “Que vergonha senhores“, onde ela mostra as contradições, equívocos e hipocrisias, de todos os atores, tão características destas situações que chamo de “iluminantes”.

A ignorância, o conservadorismo extremo institucionalizado confunde (deliberadamente) as imagens penduradas nas paredes dos museus e galerias com seus ícones sagrados, seus santos, cultos e crenças, levando à histeria os inocentes úteis, reverberando ódio e intolerância através das redes anti-sociais. Esta cortina de fumaça contemporânea, lançada por uns, espalhada por outros, faz com que o olhar da sociedade se reduza a nada, restam olhos estéreis, duros, áridos. Olhos cegos.

Francis Bacon_Fotor_Fotor_Collage

O Cristo demasiadamente humano de Grünewald, zoofilia ou o Jardim da delícias de Hieronymus Bosch, o Papa ou Inocêncio X de Francis Bacon?

A arte, que nos olha, sempre alimentou nosso espírito, nunca conteve um movimento de ódio, jamais deteve o estuprador ou o pedófilo, não impediu um assassinato, não terminou com uma guerra. O homem não precisa da arte para cometer suas atrocidades, a nossa mente doentia nos basta.

Mesmo nos momentos históricos mais conservadores, onde a arte estava censurada, controlada ou mesmo banida, as perversões mais inconfessáveis continuaram sendo executadas diariamente, apenas não eram visíveis.

A Origem do Mundo”, pintado por Gustave Courbe_Fotor_Fotor_Collage

Pedofilia ou arte grega, homossexualismo ou Gabrielle d’Estrées com a duquesa de Villars ao banho, pornografia ou A origem do mundo de Gustave Courbet?

Talvez os possessos que forçaram o fechamento da exposição queiram revisitar a história da arte para fazer um filtro do que pode ou não ser exposto, definir o que é arte ou não, o que valeu a pena no caminho das artes dos últimos séculos.

Não se lacra jamais uma exposição, um espetáculo ou manifestação de arte. Discute-se em liberdade e com autoridade. Um julgamento interno ou externo, uma crítica feroz com ou sem aplausos, ou mesmo a indiferença e o silêncio, todas as hipóteses nos elevam. Mas a história já nos ensinou (espero que não repitamos), não é saudável tocar fogo em livros, confiscar obras degeneradas, ou dar cicuta para filósofos. A história segue e a guilhotina pode servir também para quem a comanda.

Vale uma leitura sobre o tema do olhar em “O que vemos, o que nos olha” de Georges Didi-Huberman, filósofo, historiador, crítico de arte e professor da École de Hautes Études em Sciences Sociales.

 

Um comentário sobre “Quando a luz se espalha

  1. Pingback: O escândalo para baixo do tapete | of

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s