Poesia: pão ou maldição?

the_pillow_book

Filme: Livro de cabeceira de Peter Greenaway

A poesia está em todas as faces humanas, na pintura, na palavra, no silêncio, na música, na escultura, no mármore, na forma, no informe, no conteúdo, na arquitetura, na curva, na linha reta, mas também no espaço imenso do mar, ou deserto, no branco das terras geladas, no negro das minas profundas. A poesia está em tudo o que pode emocionar, paralisar, aterrorizar, elevar mas também imobilizar mulheres e homens. Mas alguns dizem que a poesia tem todas as faces e nenhuma simultaneamente. Nos diz Octavio Paz: “o poema é uma máscara que oculta o vazio“. O que diremos, então, sobre o poeta que tem como ofício desvelar essa poesia que está em tudo, sem pertencer a nada?

Poeta britânico e posteriormente naturalizado norte-americano Wystan Hugh Auden (1907/1973) é um dos poetas chaves da sua geração. Ele mesmo em seus textos indica as dificuldades e ambiguidades do caminho: “Em meu sonho acordado de uma Escola para Poetas, o currículo seria como segue:

1)  Além do inglês, seriam exigidas pelo menos uma língua antiga, provavelmente grego ou hebraico, e duas línguas modernas. 2)  Milhares de versos nessas línguas seriam aprendidos de cor. 3)  A biblioteca não teria livros de crítica literária e o único exercício crítico exigido dos estudantes seria escrever paródias. 4)  Seriam exigidos, de todos os estudantes, cursos de prosódia, retórica e filologia comparada, e todos precisariam escolher três cursos entre matemática, história natural, geologia, meteorologia, arqueologia, mitologia, liturgia e culinária. 5)  Todo estudante seria obrigado a cuidar de um animal doméstico e a cultivar um pequeno jardim.

COrpo e texto_Collage

O Último romance escrito por Hermann Hesse, escritor alemão (1877/1962), publicado em 1943, “O Jogo das Contas de Vidro ou O Jogo de Avelórios” descreve uma população mítica, vivendo no ano 2200, onde as regras e o desenvolvimento do jogo, que é central na comunidade, ganham contornos de uma imensa articulação de conhecimentos ligados a arte, a linguística, a ciência, especialmente a matemática e a música. Os jogadores devem relacionar todos estes conhecimentos. Qual o objetivo do jogo? Provavelmente a elevação material e espiritual. Minha perspectiva é que Hesse buscava descrever a sociedade que havia encontrado o espaço da poesia. A poesia como guia, condutora da sociedade. O jogo revela a poética onde o poeta utiliza necessariamente pseudônimo e após morrer se dilui no anonimato.

A imagem poética é a explosão de uma imagem, em sua novidade, em sua atividade. Aquilo que é vasto reúne os contrários, ser e mundo, imensidão e intimidade, grande e pequeno, assim como, dia e noite.” Assim fala Bachelard, filósofo e poeta francês (1884/1962) confirmando a imagem fulgurante que falamos em outros textos sobre o infinito.

max_Fotor

Para finalizar cito Octavio Paz: “A impossibilidade de escrever um poema absoluto em condições também absolutas, tema de Igitur e da primeira parte de Un coup de dés, graças à crítica, à negação, converte-se na possibilidade, agora e aqui, de escrever um poema aberto em direção ao infinito. O poema não nega o acaso, mas o neutraliza ou dissolve: il réduit le hasard à l’infiniti”. Texto de Paz sobre o poema de Mallarmé, poeta francês (1842/1898).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s