Onde habita o infinito?

Dali

O infinito bigode de Salvador Dali

Se o universo é infinito, o que há depois dele? Esta pergunta nos acompanha desde que somos crianças.

A percepção de que tratar do infinito é (sempre) tratar daquilo que é “muito grande”, foi construída certamente a partir de nossa perspectiva humana mais básica. Pés fincados no chão, arrastando o corpo pesado sob a gravidade, sem contudo nos impedir de olhar para o céu ao encontro das estrelas mais distantes. O infinito, portanto sempre foi procurado nas distâncias incomensuráveis do universo.

A matemática e seus cálculos nos demonstraram aos poucos que não há apenas um vastíssimo mundo para além, mas também temos um imenso mundo para aquém, ou seja temos um universo para dentro da realidade visível, dentro da matéria que tocamos, sentimos, cheiramos, vemos…

A ciência e a nossa percepção não atingiu nenhuma das duas fronteiras da infinitude. Não chegamos nem perto das bordas do cosmos, tampouco mergulhamos profundamente nas partículas da física quântica (que ficam, a cada descoberta, cada vez mais longe). Estas duas abordagem do infinito (independentemente de serem muito complexas) me parecem ainda muito lineares e pobres. É como se tivéssemos apenas dois caminhos para decifrarmos o infinito. Um para cima e outro para baixo ou para dentro. Um nos levaria ao número máximo, outro ao zero. Isso reafirma a ideia de que vivemos em um universo tridimensional, o que já me parece pouco diante de tudo o que vivemos e experimentamos.

Se o universo possui outras dimensões (o que muitos cientistas já discutem) que ainda não percebemos (e não há nada de espantoso nisso. Basta lembrar que não tínhamos noção do mundo quântico até a primeira metade do século XX), devemos levar em consideração que a percepção de infinito também se modifique. Se, como já afirmamos, o infinito cósmico se caracteriza pela palavra “além”, o infinito quântico se move na direção da palavra “aquém”, me parece que se passarmos a lidar com o infinito de um mundo multidimensional a palavra que irá nos nortear é “entre”.

Esta ideia de infinito em várias dimensões é muito mais complexa e mais próxima, tem um perfil mais humano, é muito mais aproximada ao nosso corpo, a nossa alma, tem mais relação com os ciclos dos seres (animais, vegetais e minerais) sobre a terra, ritual de procriação, nascimento e morte, transformação infinita da matéria que não cessa sua mutação.

O que seria então esse infinito multidimensional? Não é aquele nos leva para longe (para cima ou para dentro). Este é um infinito que acontece no presente, mas que se projeta do passado, estabelecendo o momento seguinte. Um infinito que revolve o passado como em uma escavação arqueológica, repetindo os movimentos humanos, materiais, como o ciclo das chuvas, as estações do ano, os impulsos para o amor, para o crime, para o poder, para a vida, para a procriação ou para o suicídio. A ancestralidade dos homens e das coisas interagindo sobre esse “presente reminiscente”, para usar um termo de Walter Benjamin, que deposita todos os dias mais uma folha repleta de imagens, de atos, gravados sobre o grande palimpsesto humano.

Essa ideia de infinito, que se repete sobre si mesmo, e que somente perceberemos quando descobrirmos as outras dimensões que nos rodeiam, dá conta de todos os nossos atos, dos nossos lapsos, do que vemos, do que nos olha, do que não vemos, do que nos dá alegria e sofrimento, dos eixos que se formam entre pessoas, entre coisa. Ligações de pessoas com paisagens, com sons e ambientes. Ideias que surgem, que se perdem, Rupturas que destroem, que matam para vivificar. Esse infinito sempre alimentou (mesmo sem sabermos) a arte, a ciência, a filosofia e a religião. Pessoas e coisas que nos rodeiam, como ideias distantes, sem que possamos tocá-las, mas que nos transmitem há aproximadamente duzentos mil anos “imagens fulgurantes”, dos caminhos de seres e matérias sobrepostos dia a dia soterrados em um imenso monturo onde habita o infinito.

Desenvolverei essa ideia em mais alguns textos que publicarei aqui. Se você se interessa pelo assunto siga o Blog OF.

 

2 comentários sobre “Onde habita o infinito?

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