O baile do rato morto

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Pintura de James Ensor

Tenho uma atração irresistível por arte que leva o fruidor ao seu extremo. Normalmente estas linguagens muito próprias, singulares, e carregadas de tintas com cores insólitas, não se encaixam em grandes tendências ou nas escolas dos seus pares contemporâneos. São artistas com visões extremamente particulares do mundo, suficientemente fortes para sacudir a própria vanguarda do seu tempo.

Solitários neste mundo, estes artistas se arrastam na frente abrindo trilhas nos solos mais inóspitos e totalmente selvagens, seja um deserto, uma floresta, ou mesmo a alma humana. Produzem trabalhos originais, não porque são diferentes, mas porque conseguem beber nas fontes que dão origem ao nosso ser, ou seja, partem sempre de um ponto fundador nascido no presente, mas com a visada em um passado distante. Longe da contaminação intelectual, que apenas lhe serve de báculo, sem sufocar a expressão da força anímica, que nos revolve na vida.

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Pintura de James Ensor

Esta arte, quase invisível aos olhos, tem outra característica muito marcante: ela sempre estabelece ligações excêntricas, raras e poderosas com outras formas de artes que flutuam no mesmo campo gravitacional. E são estas ligações elementares que abrem portas, transformando a ótica, a estética, a experiência e a ética dos seus poucos e também estranhos seguidores.

Um destes casos é James Ensor, nascido em 13 de abril de 1860 na cidade de Ostend, Bélgica. Pintor e gravador, influenciou movimentos posteriores como: expressionismo, simbolismo, fauvismo, surrealismo e mesmo o dadaísmo. Ensor é desconhecido do grande público, porque como falei acima, ele é pouco palatável, não é macio ao toque, não facilita a recepção da mensagem, suas imagens são pontiagudas e cortantes. Mesmo sendo figurativo é grotesco, usa a fantasia do cotidiano para atingir nossos subterrâneos mais profundos, transcende na própria materialidade de suas formas, cores e carnes humanas.

Hieronymus Bosch

Pintura de Hieronymus Bosch

Ensor possui linhas invisíveis que o ligam fortemente a Hieronymus Bosch (holandês) e a  Pieter Bruegel (belga). Eles se confundem em suas máscaras, na convivência com animais que nos dominam, na ideia de terror e horror que nos assombra, na nossa face mais sombria e infernal. Suas figuras estão sempre absorvidas nos festins com clima infantil e ao mesmo tempo diabólico. Sorriem de uma dor infinita em um ambiente aristocrático e decadente. A morfologia humana, em Ensor, carrega a genética animalesca como aura do que somos.

 

bal du rat mort okEm 1898 James Ensor e seus amigos criam o encontro anual e filantrópico “O Baile do Rato Morto”. Um baile de máscaras a moda dos Bals Masqué franceses, que Ensor presenciou em Montmartre, Paris. Nesta visita Ensor também fixou o nome de uma casa da noite parisiense chamada “O Rato Morto”. Este café que por sua vez é retratado em uma pintura de Toulouse-Lautrec.

 

 

Rat mort

Pintura de Toulouse-Lautrec “No Rato Morto”.

Nesta confluência, nesta esquina do mundo, se encontram Ensor, Bosch, Bruegel, Lautrec, e todos aqueles artistas que conseguem nos levar para o corner, diante de nosso elemento…onde o silêncio pergunta: e a morte?

 

 

 

 

 

 

 

I have an irresistible attraction to art that takes the viewer to the extreme. Normally, these very particular, singular languages painted with unusual colors do not fit into the major trends or schools of their contemporary peers. They are created by artists with extremely unique visions of the world, strong enough to shake the vanguard of their time.

Alone in this world, these artists plod ahead, opening trails in the most inhospitable and totally wild terrain, whether it is a desert, a forest or even the human soul. They produce original works, not because they are different, but because they are able to drink from the sources that give origin to our being, that is, they always begin from a founding point that is born in the present, but with a gaze towards a distant past. They stay far from intellectual contamination, which only serves as a staff, and does not suffocate the forceful expression of the soul that drives us through life.

This art, which is nearly invisible to the eye, has another striking characteristic: it always establishes eccentric, rare and powerful connections with other forms of art that fluctuate in the same gravitational field. These elementary connections open doors, transforming the optics, the aesthetics, the experience and the ethics of their few and strange followers.

James Ensor is one of these artists. He was born on 13 April 1860 in the city of Ostend, Belgium. A painter and engraver, he influenced later movements including expressionism, symbolism, fauvism, surrealism and even Dada. Ensor is unknown to the greater public, because, as I mentioned above, he is not very palatable, he is not soft to the touch, he does not facilitate the reception of the message, his images are pointed and cutting. His work is figurative and grotesque. Using the fantasy of daily life to reach our deepest undergrounds, he transcends in the very materiality of his shapes, colors and human fleshes.

Invisible lines strongly link Ensor to Hieronymus Bosch (from Holland) and to Pieter Bruegel (from Belgium). They are joined by their masks, their conviviality with animals that dominate us, by the idea of terror and horror that haunts us, in our most somber and infernal face. His figures are always absorbed in festivities with simultaneously childish and diabolic airs. They smile from infinite pain in an aristocratic and decadent environment. In Ensor’s work human morphology carries animalesque genetics as an aura of what we are.

In 1898 James Ensor and his friends created the annual philanthropic gathering, “The Dead Rat Ball”. A masquerade ball like the  French Bals Masqué, which Ensor discovered in Montmartre, Paris. From this visit, Ensor also remembered the name of a Parisian nightclub called the “Dead Rat”, a café that is portrayed in a painting by Toulouse-Lautrec.

This confluence, this corner of the world, is the meeting place of Ensor, Bosch, Bruegel, Lautrec, and all those artists who are able to lead us to the corner, to face our element…where the silence asks:  and death?

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