A peste e a arte

No vídeo George Didi-Huberman indica um dos caminhos da arte de hoje.

A peste dos nossos tempos está contaminando lentamente, sistematicamente a arte.

O que é esta peste? Trata-se de um virus que se insinua dissimuladamente na forma de discurso democratico, travestido de liberdade de opinião, mas que no fundo de suas inconfessáveis intenções, mantém apenas um desejo: estabelecer uma discussão rasa, superficial, reduzida, sobre o que é certo ou errado. Definir o bem e o mal, determinar o que é esquerda ou direita, vaticinar o que é certo ou errado, enfim conceituar (no caso específico da arte) se é arte ou não aquilo que penduram nas paredes ou colocam no meio das ruas.

Com a ascensão do conservadorismo em países importantes no cenário mundial, como os Estados Unidos, crescem também as mobilizações de grupos alinhados com o pensamento conservador que desejam ocupar espaço e defender suas ideias. Até aí tudo está certo e tem legitimidade.

Porém o maniqueísmo no discurso, empoderado por vitórias eleitorais em grandes potências, já segue a mesma receita do marketing indicando, que quanto maior a truculência maior é a geração de benefícios. A estratégia é criar, de cara, a opinião do ame-o ou deixe-o, amor ou ódio, verdade ou mentira. Sem espaço para o aprofundamento das discussões, sem a riqueza das nuances que sempre caracterizaram o pensamento complexo, envolvente, da grande filosofia, literatura ou arte.

O discurso conservador que se espalha mundo afora sobre as características da arte não servem para nada, é obtuso, não possui liberdade, tampouco inteligência. Vomita suas frustrações e tenta destruir com um só golpe todo o caminho percorrido por grandes artistas e pensadores. É um grito desesperado que tenta manter acessa sua chama enfraquecida nas derrotas diárias da opressão e da força.

Acusam a arte contemporanea de hegemônica e não querem ver que não há mais limites ou fronteiras criativas nas artes produzidas em nossos dias. Este monólogo limitado e redutor não pode ganhar espaço entre aqueles que se expressam para compreenderem melhor ao outro e a si mesmo. São descobertas diárias que não possuem receitas, manuais, ou cartilhas. Nem à esquerda, tampouco à direita. A arte está sempre nas dobraduras, nas diagonais, nos descaminhos, nas inflexões. E por aí seguirá.

 

Humano, demasiado humano

 

O título deste texto é um livro de Friedrich Nietzsche, onde o filósofo alemão destrói, de maneira consistente, as realidades eternas e as verdades absolutas, de sua época. Nietzsche nos apresenta o conceito de espírito livre e projeta o comportamento do homem do futuro.

Neste livro de aforismos faz um crítica pesada sobre a história da filosofia e da ciência, nos dando conta que elas não atingiram seu objetivo de ajudarem na construção de espíritos realmente livres: homens que não permanecem no conforto do trilho já aberto por seus antecessores, mas que desbrava seu próprio caminho.

Mas apenas cito Nietzsche, um iconoclasta absoluto, porque considero sua obra como o bisturi, mais afiado, sobre a carne macia dos homens entorpecidos pelo som hegemônico do poder.

O poder que sempre controlou através de sua mais conhecida ferramenta: o medo.

Assim, nos últimos 100 anos, a população mundial, entre capitalismo e socialismo, vagou perdida entre informações e desinformações. Uma divisão maniqueísta que servia aos dois senhores. Anjos e demônios. Uns exploravam os mais fracos para obtenção do lucro, os outros comiam criancinhas, além de serem ateus.

Dessa forma, de maneira segmentada, quem detém algum poder sempre utiliza o medo como seu aliado para a manutenção deste mesmo poder.

Alguns exemplos são fáceis de serem comprovados: A indústria farmacêutica e seus remédios salvadores, a indústria religiosa e suas doações salvadoras, a indústria da segurança e suas câmeras e alarmes protetores.

Quem conhece a obra de Thomas Malthus, cientista inglês, falecido no século XIX, sabe de sua projeção de fome, miséria e doenças, a partir de estudos sobre o crescimento aritmético da produção de alimentos contra o crescimento  geométrico da população mundial. Lançou o terror sobre as pessoas e depois vendeu sua tese de controle da natalidade, castidade, etc. Como bom religioso anglicano que era, depois de estruturar o problema da matéria, entrou no campo do espírito para concluir seu estudo de caráter moralizante.

Porém nenhuma destas estratégias e modus operandi me surpreende. Esta era a nossa história, uma história feita de muitos equívocos, sangue e lágrimas, onde caminhávamos quase tateando sobre a geografia escarpada e difícil do planeta, sem uma ampla visão do todo.

Mas chegamos aqui com um mundo “menor”, mais próximo onde nunca se falou tanto em tolerância, compreensão, diferenças, compartilhamento, etc. E o fruto desta inflexão, mudança de comportamento, que retirou os “humanos” da discussão focada no cadáver capitalismo/comunismo foi: o ambientalismo. Nossa última e mais recente utopia. Uma nova hóstia para ser ingerida.

Minha surpresa reside aí. O discurso estruturado dos ambientalistas, segue com a lógica velha, utilizando o medo como bengala. Aquecimento global, elevação do mar, degelo das calotas polares, camada de ozônio, etc…. Dados deturpados, enganosos para que a população mundial tenha aderência através do pavor, do medo da morte, da incerteza no futuro.

É realmente triste que uma discussão positiva e importante como esta seja tratada de forma tão venal. É fundamental abordarmos os recursos naturais, sua utilização pelo homem, a definição dos nossos limites, mas sem a posição hegemônica e monolítica, mais uma vez do poder econômico travestido de cordeiro.

Nietzsche ainda aguarda a nossa construção de espíritos livres. Mas sem o devido espaço para o contraditório, para pensamentos divergentes ou mesmo antagônicos, sem o respeito às diferenças (sistematicamente defendidas nas vanguardas), não avançaremos um milímetro. Espero que o Ambientalismo não se transforme em mais uma marca, como tantas outras, vendida em nossos shoppings…

 

 

Giacometti em Londres

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Giacometti e Genet

A Tate Modern mostra até 10 de setembro deste ano uma das maiores exposições sobre Alberto Giacometti (1901/1966) realizadas na Inglaterra. Escultor, pintor e desenhista Giacometti possui uma das obras mais sólidas do chamado modernismo no último século.

Da mesma forma que a de Van Gogh, a obra de Giacometti é moída, remoída, pisada e repisada todos os dias em um processo lento, obsessivo, permanente, que atua sobre si mesmo. É como se o artista desejasse filtrar suas linhas, formas e cores, depurando constantemente seu próprio elemento.

Um processo que se assemelha à pintura oriental, onde pintores copiam aos seus mestres constantemente, em uma espiral que se repete, sem jamais ser a mesma.

A desfragmentação da imagem em Giacometti se sobrepõe, trabalho após trabalho, em um palimpsesto onde o caos está aprisionado em limites rigorosos, construídos por linhas perpendiculares, longitudinais, transversais. Giacometti se copia constantemente sem jamais se repetir.

Considero ainda que a força descomunal de sua obra está no fato de que Giacometti é único, seja na pintura, desenho ou escultura, ele é monolítico, não existe no conjunto de seus trabalhos um só espaço vazio ou mesmo qualquer área vacilante. Suas imagens são rigorosas e irrespiráveis.

Estar na frente de um Giacometti é um desafio, uma experiência que nos transporta a outro lugar sem que nenhum músculo do nosso corpo se movimente.

Jean Genet 1954 or 1955 by Alberto Giacometti 1901-1966

Retrato de Jean Genet por Giacometti

Para conhecer um pouco mais desta obra singular devemos ler um dos seus retratados ilustre e maldito: Jean Genet em O Ateliê de Giacometti. Vale conferir.

Sons de John Cage

A música de John Cage não permite que os ouvidos a percebam como música, – aquela doce e melodiosa que conhecíamos até aqui – mas como apenas como sons. Incluindo aí, com importância essencial, o silêncio, tão revelado pelo autor, valorizando assim o sons que vem do outro (daquele que ouve e respira).

A música melódica, tonal, que conhecemos e aprendemos a reconhecer ou ler, desde suas origens, passa pelo classismo, barroco e romantismo se diluindo até o inicio do século XX. Sons encadeados perfeitamente para nossos cinco sentidos. Sobretudo aquilo que é tátil, no sistema auditivo e a pele que absorve o ritmo em camadas de vibração celular. Esta música, como a conhecíamos há alguns anos, tem relação direta com as medidas do nosso corpo, com o alcance da visão, com os aromas da memória. Trata-se de música definida nas escalas do vento que percebemos em nossa pele, nas linhas das montanhas visíveis, no balanço do mar que se extingue em um arco como horizonte. A música tonal é encadeada como são as ligações naturais, como o balanço das árvores, o movimento dos animais. Esta música é músculo em contração, é respiração contínua, fazíamos música como olhávamos para o mundo, um olhar rápido e desinteressado, ou rápido e profundo, um olhar obcecado e permanente, triste ou melancólico. Uma música encadeada, setenária, contínua sem rupturas, sem vazios, sem desafios, aconchegante, maternal. A música que nos trouxe até aqui projeta linhas que se movimentam e giram ao nosso redor criando um vórtice que nos envolve e protege. Ela é antropométrica em nossa relação com o meio.

Nos anos 40 John Cage entra em contato com uma câmara anecóica (Anechoic chamber), um ambiente criado pela engenharia, com seis paredes feitas com material especial para não reverberar nenhum eco. Um lugar que proporcionaria um silêncio quase total. E é aí neste local que Cage descobre que não existe silêncio, os sons internos, do seu próprio corpo ocupam seus sentidos e abrem perspectivas infinitas para sua música. Esta experiência inaugura um espaço para sons difíceis, duros, aleatórios, distantes das medidas do nosso corpo mais superficial ou mesmo da natureza visível que nos cerca.

Ao mesmo tempo em que desenha caminhos para Cage valorizar todos os sons que nos circundam, confira nas palavras do músico em outro post, independente da “genialidade” do artista, o que vale para Cage é a multiplicidade estabelecida entre artista, obra e ouvinte. Aqui encontramos uma similaridade com a obra de Duchamp que nos recoloca frente a frente com os objetos prosaicos disponíveis a nossa volta em seus ready mades, da mesma forma que Cage nos coloca diante dos sons que nos cercam em todos os segundos da nossa vida.

Mas independentemente das inferências filosóficas retiradas da obra de John Cage, ao revelar os sons singulares do microcosmo, sua música igualmente nos eleva aos sons do macrocosmo, das estrelas. Um eco e um oco sonoro de raios cósmicos, um som de partículas em deslocamento, fluxo elementar passando por nossos ouvido e pele. Sua música revela a permeabilidade celular  e orgânica dos líquidos, os impulsos elétricos do córtex animal, mas simultaneamente o pulso das estrelas, a viagem da luz no vácuo, entre milhões de partículas gravitando de forma intempestiva.

Sua música está “em lugar algum” do nosso espaço circundante. E ao mesmo tempo, infinitamente próxima, íntima, dissolvida no “eu”. É a música de um momento presente – um átimo entre dois movimentos -, pontual, único, porém de um ser singular mas completamente permeável ao outro.

Enquanto a melodia afaga e agasalha nossas emoções, os sons de Cage sacode nosso espírito.

A vida tem mesmo valor?

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Muito se fala em mal do século. E muitos males são definidos como sendo o “principal mal do século”. Alguns são doenças, algumas físicas, outras psicológicas, outros males ainda estão no campo subjetivo da ética como: preconceito, violência, subjugação, etc. Temos ainda os grandes males objetivos como: a guerra, o dinheiro, as drogas, e tantos males se empilham que provavelmente teríamos uma nova torre de babel se elevando em direção aos céus.

Eu gostaria de chamar a atenção para uma palavra e ao mesmo tempo atitude que, para mim, está na base, na formação de muitos dos nossos males contemporâneos.

Eu estou falando da “hipocrisia”.

A hipocrisia por definição é o ato de fingir que se tenha qualidades, idéias ou sentimentos que na realidade não se possui. Provem do Latin hyposrisis e Grego hypokrisis que significam ação de desempenhar um papel.

Alguns pensadores modernos afirmam que a hipocrisia é o único cimento que permite a convivência tão próxima entre as crenças do espírito religioso e o capitalismo como o conhecemos. Portanto a hipocrisia permeia todas as nossas grandes ambiguidades, os paradoxos atuais, as contradições humanas.

François Duque de Rochefoucauld define de maneira mordaz a essência do comportamento hipócrita: “A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”. Ou seja, todo hipócrita finge emular comportamentos corretos, virtuosos, socialmente aceitos.

Já para o linguista Noam Chomsky, a hipocrisia, é definida como:  a recusa de “… aplicar a nós mesmos os mesmos valores que se aplicam a outros”.

Nós, no Brasil dos superlativos, vivemos hoje uma das maiores crises de hipocrisia cristalizada em uma sociedade em todos os tempos. Exigimos dos outros, de forma radical, aquilo que nós mesmos não fazemos.

Mas, muito além das fronteiras brasileiras, encontrei outra pérola da hipocrisia humana. Semanas atrás foi noticiada na imprensa internacional ocidental, com um certo orgulho, a quebra do recorde de tiros a distância. O problema desta nota é que seria prosaica caso o alvo não fosse uma pessoa.

A matéria foi tratada de forma técnica, fria, cirúrgica explicando a distância de 3.5 km, a curvatura da terra que foi levada em consideração, os 10 segundos que a bala levou para cobrir o trajeto, enfim uma ode ao tecnicismo, além da apologia à qualificação da arma canadense e do conhecimento dos nossos “snipers”. Todas as matérias que li tinham a mesma abordagem árida, como se a bala fosse em direção à uma lata velha.

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Simultaneamente, nossa sociedade através da educação que nos proporciona, dos padrões religiosos que prega, das bandeiras de solidariedade que empunha, defende com unhas e dentes os valores da vida, da sua manutenção.

Somos críticos mordazes dos nossos próprios antepassados, que por qualquer motivo, retiravam a vida do mais fraco, críticos das instituições como a inquisição que matavas sem pestanejar, da força, da guilhotina, da idade média e seu obscurantismo e incivilidade que retiraram tantas vidas inocentes. Épocas onde, dizemos hoje, a vida não tinha qualquer valor.

Somos realmente quem dizemos que somos? Somos defensores da vida em sua totalidade? Ou nos interessa apenas uma parte da vida, uma parte dos vivos?

Ainda estamos escondidos sob a mascará da hipocrisia, chorando apenas os nossos cadáveres (ainda assim nem todos), sofrendo apenas com os nossos males.