O tempo da arte

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Kazuo Ohno nasceu 27/10/1906 e morreu em 01/06/2010, dançarino e coreógrafo japonês é considerado mestre do teatro butô. Esteve no Brasil em 1986, 1992 e 1997. Sua arte sacudiu a dança contemporânea japonesa nos anos 60. Kazuo recebeu importante influência do dançarino expressionista alemão Harald Kreutzberg (1902-68). Outro fato significativo na vida de Kazuo Ohno foi sua paixão pela dançarina Antonia Mercé y Luque conhecida como La Argentina, que ele assistiu pela primeira vez no Teatro Imperial de Tóquio em 1929, e jamais a esqueceu.

“Durante os cinquenta anos que se passaram, essa visão muitas vezes me dominou. Mas pouco importa quantas vez me aconteceu de chamá-la ou de implorar; não se desvendou mais para mim, se bem que entranhada no mais profundo da minha alma.”

Portanto mais de cinquenta anos depois, o dançarino estava com 71 anos, durante uma exposição de um pintor japonês, diante de uma pintura geométrica, Kazuo Ohno começa a dar forma ao espetáculo “Admirando La Argentina” (fotos), um solo, que conquistou a Europa em 1980, no festival de Nancy, França.

A obra de Kazuo Ohno localiza-se naquele ponto único onde a arte parece negar-se a si própria. Um lugar onde poucos artistas se arriscam. Existe aí uma vontade de tocar o mistério, o obscuro, conhecer a morte em vida. O abismo precisa ser explorado até a sua desmedida. Sua dança não é dança. O que ele expressa é a própria vida/morte em movimento, em silêncio, em pausa, sem ar, sem olhar.

Neste lugar onde poucos habitam estão Jonh Cage e seu som do silêncio, que portanto não é música; Karlheinz Stockhausen com suas duas composições Licht e Klang, uma com vinte e nove horas de música e a outra com sons referentes aos sete dias da semana e da mesma forma não são música como a conhecemos. Igualmente neste campo da ausência está James Joyce e seu Finnegans Wake, ou mesmo Ulisses, textos que não são literatura. Não é diferente o desejo de Kazimir Malevich com sua obra Branco sobre Branco, uma pintura que não é pintura. Como também o Grande Vidro de Marcel Duchamp não é pintura, tampouco escultura.

Estas grandes obras filhas da ausência tentam fundir céu e inferno e encaram a vida e a morte como o mesmo elemento. É aqui que encontramos a performance de Kazuo Ohno buscando tocar a máxima escuridão com a mão direita enquanto retira o pé esquerdo da claridade absoluta.

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THE TIME OF ART

Kazuo Ohno was born on October 10, 1906, and died on July 01, 2010. The Japanese dancer and choreographer is considered a master of Butoh theater. He had been in Brazil in 1986, 1992 and 1997. His art shook the Japanese contemporary dance in the 1960’s. Kazuo received a great influence by the German expressionist dancer Harald Kreutzberg (1902-1968). Another relevant fact in Kazuo’s life is his passion for the dancer Antonia Mercé y Luque, also known as “La Argentina,” that he saw for the first time in the Imperial Theatre, in 1929 in Tokyo, and never forgot.

“During the fifty years that passed, this vision had dominated me a lot of times. But it doesn’t matter how many times I went calling on her or begging her; She didn’t reveal herself to me anymore, although [she was] engraved in the bottom of my soul.”

Then, when the dancer was 71 years old — therefore more than fifty years after seeing La Argentina’s performance —, in the face of a geometric paint in an exposition of a Japanese painter, Kazuo Ohno started to give form to the performance “Admiring La Argentina” (photos), a solo that has won over Europe in 1980, in the International Festival in Nancy, France.

Kazuo Ohno’s work is located at that point where art seems to deny itself. A particular place where few artists risk to go. There is a will to touch mystery and the obscure, and to know death in life. The abyss needs to be explored until its utmost. His dance is not dance. What he expresses is life/death itself in movement, in silence, in pause, breathless, sightless.

In this place where very few live, we find John Cage and his sound of silence that, therefore, is not

music; Karlheinz Stockhausen with his two compositions “Licht” and “Klang” — one lasting twenty-nine hours of music, and the other with sounds referring to the days of the week —, that, in the same sense, aren’t music as we know it. Also in this field of absence, we find James Joyce and his “Finnegans Wake,” or even “Ulysses,” books that are not literature. It’s not different the desire of Kazimir Malevich with his work “White On White,” a painting that is not a painting. As well as Duchamp’s “Great Glass,” that is not painting, nor it is sculpture.

These great works, spring of the absence, try to merge heaven and hell and look life and death as the same element. It is here where we find the performance of Kazuo Ohno, trying to touch the utmost darkness with the right hand while putting his left foot out of the absolute clarity.

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