brasil: o caos deliberado

vulcao

2017 inicia e deixa para trás uma sombra grotesca e assustadora de um país que se supera negativamente todos os dias. O Brasil sempre possuiu uma sociedade injusta, porém agora somos, além de (novamente) mais desigual, também mais violenta.

Minha opinião é que por sermos, todos, hipocritamente coniventes com a perpetuação das injustiças provocamos, nas partes mais frágeis do nosso tecido social, a explosão da violência como resposta ou ponto de fuga. E não falo aqui apenas da violência institucional, visível, com nome próprio como: homicídios, assaltos, ou sequestros; falo sobretudo da violência doméstica, social, silenciosa, invisível, e portanto mais trágica, que destrói nossa infância, ou penaliza a velhice e todas as demais fraquezas. Um tipo de violência sórdida que deseja nossa imobilidade e cultiva o medo como seu anjo exterminador.

Finalizamos o ano com este sentimento compartilhado por muitos de um amargor, deixado na boca, provocado por sonhos sepultados, desilusões que se amontoam como um grande depósito de lixo a céu aberto. Uma sensação de perda irreparável, como a morte de um dos nossos, se estabelece ao percebermos novamente o afastamento de conquistas essenciais na formação da cidadania, da dignidade e da cultura. Somos hoje náufragos que mesmo enxergando a terra temos certeza intima que já não conseguiremos salvar nossa vida, a profundidade é mais forte, as ondas são perversas, a maré nos arrasta para fora.

Frustração é a palavra que hoje assombra a alma brasileira e perigosamente nos faz caminhar na borda de um conhecido abismo, experimentado por outros povos em diversos momentos trágicos da história humana, no limite da desesperança.

O ceticismo emergido a partir dessa verdadeira erupção de pus político, gangrena social e aberrações financeiras, poderá inviabilizar a reação de um país que vem sendo paralisado lentamente pelo depósito de cinzas vulcânicas recaídos sobre nossas cabeças a cada nova explosão de irresponsabilidade, violência, ignorância ou simplesmente idiotia.

Não há como negar que mesmo os mais resistentes, otimistas, aqueles que acreditam que fazendo nossa parte estaremos contribuindo para o conjunto, todos os que, conhecendo a história, sabem das grandes dificuldades para se construir um país justo e honesto, mesmo estes estão cansando do Brasil, procuram esquece-lo, afastam-se do país por sua descrença em subjugar este caos estabelecido e que privilegia apenas alguns, por algum tempo, em circunstancias específicas.

Talvez para revertermos essa situação tenhamos de leva-la ao limite. O caos tenha que se aprofundar mutíssimo mais para finalmente apoiarmos nossos pés no fundo do poço e aí  sim nos impulsionarmos na direção oposta do que vivemos hoje em nosso país. É provável que todo o vulcão, chamado brasil, tenha de explodir, esgotar-se suas lavas e suas cinzas sobre nossos corpos, para podermos estabelecer novas bases em nossa sociedade. Uma base sólida onde toda estupidez, individualismo, exclusivismo, insensatez, ganância, e é claro, os nossos cadáveres estejam firmemente petrificados para servirem de lembrança as futuras geração do que não se deve repetir.

brasil: the deliberate chaos

2017 starts and leaves behind a grotesque and frightening shadow of a country that negatively overcomes itself every day. Brazil always had an unfair society but now we are also more violent, besides, again, being more unequal.

My opinion is that, because all of us are hypocritically conniving with the perpetuation of injustices, we provoke the explosion of violence as a response or as a vanishing point in the most fragile layers of our social fabric. And I’m not talking only about the institutional violence, the one that is visible and has a proper name ― like homicides, robbery, kidnapping; above all, I’m talking about the domestic, social violence; the silent, invisible, and thus more tragic, violence that destroys our childhood. or penalizes the old age and all the other weaknesses. A kind of sordid violence that desires our immobility and cultivates fear as its exterminating angel.

We come to the end of the year with this feeling shared by many. The feeling of a bitter taste left in the mouth, incited by buried dreams, disappointments that pile up like a huge trash deposit under open skies. A feeling of loss beyond repair, like the death of a loved one, settles as we notice one more time the distancing of some essential conquests in the formation of citizenship, dignity, and culture. Today we are castaways who, though they can see the coast, know deep in their hearts that their lives won’t be saved. The profundity is stronger than us, the waves are perverse, the tide drags us out.

Frustration is the word that haunts the Brazilian soul today and dangerously makes us walk on the edge of a known abyss ― one that was already experienced by other people in various tragic moments of human history, in the limits of hopelessness.

The skepticism emerged by this true eruption of political pus, social gangrene, and financial abomination can render impossible the reaction of a country that has been slowly paralyzed by the deposit of the volcanic ashes that constantly fall over our heads after each new explosion of irresponsibility, violence, ignorance, or simply idiocy.

There is no way of denying that even the resistant ones, the optimists, those who believe that doing our part we will contribute to the bigger picture; all those who, knowing the history, recognize that there are big difficulties in building an honest and just country ― even these people are getting tired of Brazil, trying to forget it, going distant from the country because of their lack of faith in subjugating this chaos that gives privilege only to some, for some time, under specific circumstances.

Maybe to revert this situation we should raise it to the limit. Maybe the chaos must get deepened a lot more for us to finally set our feet at rock bottom, then we will be able to drive in the opposite direction of what we live today in our country. Probably the whole volcano called Brazil has to explode, to run out of its lava and ashes over our bodies, for us to establish new bases in our society. A solid base under which all stupidity, individualism, exclusivism, foolishness, greed ― and, of course, our dead bodies ― are strongly petrified to serve as a reminder to the future generations of what one should not do.

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