O outro mar de Daniel

limite1_Fotor

Limite de Mário Peixoto

 

Pensar na poesia de Daniel me remete para o campo da desordem dionisíaca, para a palavra que revoluciona, e o que primeiro me vem a cabeça são pilhas de manuscritos e informes.

A alma da poesia de Daniel é apenas, e tão só, manuscrito em sua sagrada materialidade, na forma e conteúdo, inextricáveis siameses ligados por seu sistema nervoso central.

O que é um manuscrito em Daniel? Uma madeira cravada de pregos encontrada na beira de um rio ao sul de uma ilha. Um amontoado de papeis escritos, carregados sob o braço e finalmente perdidos em um bar. Uma  pasta com dezenas de recortes, pedaços de desenhos e anotações. Cópias de imagens e textos em colagens toscas e poderosas. Canetas ordinárias e, mesmo assim, roubadas. As folhas que se sobrepõe manchadas por bebida, fumo, tinta, ou algum aromático feminino. Uma chave que não abre portas. Bolsos de paletós que só contem inutilidades. Roupas que não combinam. Muitas letras, em azul, que se justapõe sobre papéis brancos, pardos, para embrulhar pão, provas inutilizadas de gravuras mal impressas, folhas pautadas e destacadas de cadernos estudantis. Outras letras, agora em preto, datilografadas em Remingtons velhas, pesadas, dispostas em mesas repletas de objetos sem sentido ou nexo, mesas carregadas com matéria gordurosa e graxa, bastões disformes, incensos, cinzeiros cheios, poeira e pelos, muitos pelos de gatos, togas e gotas. Outras mesas com gavetas entupidas por objetos prosaicos, mal fechadas, sujas e marcadas por tinta seca. Novas palavras, agora no rádio, em ondas que ele arrasta para seu mar. No fundo desse mar onde uma aranha somente quer dormir. O mar de sargaço.

Os manuscritos de Daniel reúnem os insólitos, os singulares, os avessos, a palavra comum tem lugar apenas na frase enferma, febril, transformada em palavrapólvora. Ao capitalismo oferece o nobre oficio de fazer pão, logo após fincar seus dentes como predador de palavras, acaricia a cabeça calva da avó. Daniel à noite caminha só nas ruas, entre manuscritos, mas amanhece pronto para abraçar a primeira boa causa social que encontrar. Las madres, los viejos, los niños, os que não tem nome, serão todos cuidados em seus sonhos da vigília. Um poeta urbano, da fricção coletiva, observador atento da cloaca da história, dos prédios antigos e suas angulosidade pontiagudas, cortantes, portas, balcões, latrinas e esgotos. A natureza de que trata sua poesia é apenas a borda da civilização, a fronteira da humanidade, a tartaruga morta na praia serve uma mesa de Buñuel, o poeta caminha nestes subúrbios da alma em busca do que restou do ser. As flores de uma Buenos Aires desolada. “Mas quem nos escuta não escuta nossa voz. Escuta nossas palavras. Então se perde no labirinto da linguagem”. Daniel segue uma trilha áspera, ácida, aberta por poetas como Arthur Rimbaud e Antonin Artaud. Essa trajetória é cristalina e incandescente no texto “Flor sobre tronco inmóvil” – “um puñal que atravesó el corazón de la poesía”.

Sua publicação recente: “O outro mar”, uma obra com apenas noventa e nove páginas, contém muito da vida do poeta, em uma tessitura complexa e múltipla. Sua poesia, seus pais, seus gatos, a prosa, os amigos, quatro outros poetas traduzidos, seu mergulho em las madres, sua deserção do serviço militar, Florianópolis, Buenos Aires, o rio, o mar, seu voo na rádio, o som de seu piano, o vinho compartilhado, o pão repartido.

Um corpo em forma de livro, orgânico, em movimento, sua leitura reproduz em nós as luzes da fisiologia, inspira (poema), expira (prosa), mastiga (palavra), saliva (metáfora), engole (imagem), vomita (história), cospe (realidade), cheira (cidade), lacrimeja (mar), e no coração (amor e coragem). Um livro que inquieta porque retesa nossa pele e tenciona nossos músculos.

Encontro, em sua poesia, uma ética extrema e singular no ato de tratar um texto, negando certas palavras, resgatando outras tantas. Daniel é um moralista no sentido definido por Jean Genet, libertário, porém consciente de que não temos nada do que nos libertar. Nossa tragédia é circular. Seus dedos longos e curvos como também sua espalda debruçada sobre o papel ou o piano, exercem com rigor o ofício de sacrificar tudo aquilo que não seja tão pesado como o mar.

Daniel’s Other Sea

To think about Daniel’s poetry is something that transports me to the field of Dionysian disorder, to the word which revolutionates, and what first comes to my mind is piles of manuscripts and reports.

The soul of Daniel’s poetry is just, and solely, a manuscript in its sacred materiality, in form and content, inextricable siamese twins connected by their central nervous system.

What is a manuscript in Daniel’s work? A piece of wood craved by nails, found by the river in the south of an island. A pile of written paper, carried under the arm and finally lost in a bar. A briefcase full of paper cuts, drawing’s pieces and notes. Copies of images and texts in rough and powerful collages. Ordinary, and even so, stolen pens. Overlapped papersheets, stained by drink, smoke, paint or any feminine aromatic. A key that cannot open any door. Jacket’s pockets that contains only the useless. Clothes that don’t match. A lot of letters in blue, juxtaposed on white paper, on brown paper, to wrap up bread; useless proofs of badly printed pictures, ruled sheets detached from student’s notebooks. Other letters typewritten now in black in old and heavy Remingtons, which are disposed on tables filled with meaningless objects, full of fatty material and grease, disform sticks, incense, overflowing ashtrays, dust and fur, a lot of cat’s fur, togas and drops. Other tables with poorly-closed, dirty drawers, spotted by dried paint and clogged with prosaic objects. Now on the radio, new words that it drags to the sea―to this sea’s bottom, where a spider just wants to sleep. The Sargasso Sea.

Daniel’s manuscripts put together the odd ones, the singular ones, the averse ones; the common word has place only in ailing, febrile phrase, transformed in pulling-the-trigger word. To capitalism it offers the noble trade of bread-making; right after sticking its tooth like a word’s predator, it caresses the grandma’s bald head. By night, Daniel walks alone in the streets, among manuscripts, but by dawn he’s ready to hold the first good cause he meets. Las madres, los viejos, los niños, those who have no name―they all will be taken care of in his dreams of vigil. An urban poet of collective friction, an aware observer of history’s cloaca, of old buildings and theirs sharp, pointy  angularity, doors, counters, latrine and sawage. The nature trated by his poetry is just the civilization’s edge, the humanity’s frontier; the dead turtle in the beach serves as a Buñuel’s table; the poet walks into these suburbs of soul seeking what remained of the being. The flowers of a desolated Buenos Aires. “But one who hear us doesn’t hear our voice. One hears our words. And then loses oneself on the labirynth of language.” Daniel follows a rough, acid track, opened up by poets like Arthur Rimbaud and Antonin Artaud. This path is crystalline and incandescent in the text Flor sobre tronco inmóvil―“un puñal que atravesó el corazón de la poesía”.

His recent publication, O Outro Mar [“The Other Sea”], a work with only ninety-nine pages, contains a lot of the poet’s life, in a complex and multiple texture. His poetry, his parents, his cats, the prose, the friends, four other poets translated, his dive in las madres, his desertion from military service, Florianopolis, Buenos Aires, the river, the sea, his flight on the radio, the sound of his piano, the shared wine, the splitted bread. A body in form of book―organic, moving; its reading reproduces in us the lights of physiology; inspires (poem), expires (prose), chews (word), salivates (metaphor), swallows (picture), vomits (history), spits (reality), sniffs (city), weeps (sea), and in the heart (love and courage). A book that lets us unsettled because it tights our skin and stresses our muscles.

I found in his poetry an extreme and singular ethics on treating a text, denying certain words, rescueing many others. Daniel is a moralist in the sense defined by Jean Genet: libertarian, but conscious that we have nothing to set us free of. Our tragedy is circular. Its long and curse fingers, as well as its body standing over the paper or the piano, perform with accuracy the task of sacrificing everything that is not as heavy as the sea.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s