O mar de Jayro

Limite_Fotor

Limite de Mário Peixoto

 

Jayro Schmidt publicou quarenta microensaios reunidos em um livro eletrônico, chamado “A linha da água marinha”, dirigido aos que não forem incrédulos.

O mar segue sendo uma das nossas principais obsessões, nossa civilização nasce em ilhas, Ulisses é a síntese do verbo navegar, enquanto a terra é nosso corpo e nossa dor em vida, o mar nos acolhe e alivia em nossa morte. O mar será nossa última fronteira.

Lendo e escavando os quarenta microensaios encontro uma linha que os transpassa a todos. Algo que particularmente é minha maior ligação com o mar: o som ou sua ausência. Quem já permaneceu durante muitas horas em uma embarcação de madeira, fundeada em alto mar, escutando os golpes leves do seu balanço sob o casco, sabe do que estou falando. Os sons ou sua ausência, na distância desta imensidão, sob ou sobre a linha da água é capaz de nos transportar para um campo insólito.

Como armadura, deste corpo sonoro que encontro no texto de Jayro, está o ofício original do poeta: tornar visível, pressentir um movimento inexistente, intuir a forma no conteúdo, ver na sombra, ouvir no silêncio. “A linha da água marinha” executa este ato com precisão cirúrgica, singular, buscando incondicionalmente, o que para mim é fundamental na construção de um texto, a visada da totalidade.

Dos quarenta microensaios vinte e nove falam de sons e onze de sua ausência. “Sem nenhuma preocupação com a verdade”.

Os sons estão na vibração de barbatanas dos peixes voadores, no segredo das vogais, podemos desvelar o mistério através do som ao quebrar o graveto, colocando um concha no ouvido, atentos aos beirados musicais que a chuva de bulha funda, soletrando os nomes das plantas, na lembrança do leque de silêncio que se abre, ao imaginar a décima sinfonia nunca executada, na língua salivada de Sherazade que não cessa, nas palavras que nomeiam o que falta, a loucura que provoca grunhidos, escutando a palavra que não soa bem ou a sombra que fala, no varejar de uma mosca, intuindo o segredo sibilado, meditando na língua canônica, acreditando na promessa de relâmpagos, acompanhando as palavras como gatos, o som da pedra que mata um homem, revelando ao foguista o que acabara de ver, lendo um monólogo, dizendo os dias da velhice, escutando o som do suspiro sobre a geladeira, percebendo que toda frase oracular é cera derretida, lendo um claro versículo ou a língua da pluma, concentrado para ler os lábios que sussurram, procurando a palavra na escuridão, compreendendo alguém que diz não ter nome para dizer.

Nas ausências Jayro busca outros sentidos, além de revelar um pouco mais do processo poético, do seu desejo ao reunir palavras, acariciando-as como um amante experiente, abrindo o único caminho para a sua transfiguração. No sétimo microensaio aparece a primeira ausência quando entra no campo dos sentidos o tato, a mão sobre os espinhos e a lacraia, em seguida quando se perde o falo místico é no colo/mar o local do descanso, o poema vê o que não estamos vendo, o desabrigo ou abrigo diferem quando podemos ver o que não era, no vigésimo terceiro microensaio aparece o fio de água tênue e permeável – título do livro – que significa simultaneamente uma separação brutal de elementos e sua absoluta interação, aqui está a ponto da totalidade, morre o que faltava morrer e jamais vereis o que vi, com outro nome não imaginei na escuridão o construtor anônimo, chamado Hiram apagando as chamas das labaredas com seu chapéu.

Este é um traçado que encontrei e percorri ao ler “A linha da água marinha”. Muitos outros existem, procure o seu em http://issuu.com/alinhadaaguamarinha/docs/a_linha_da___gua_marinha.1

Quando nasce um livro, morre o autor, mas nasce também um leitor.

Jayro’s Sea

Jayro Schmidt has published forty microessays reunited in an e-book called A Linha da Água Marinha [“The Marine Water’s Line”], directed to those who are not nonbelievers.

The sea keeps on being one of our principals obsessions; our civilization borns in islands, Ulysses is the syntesis of the verb “to navigate”; while the land is our body and our pain in life, the sea embraces and relieves us in our death. The sea is going to be our last border.

In reading and digging the forty microessays, I find a line the transpasses all of them. Something that is particulary my greatest link to the sea: the sound ou its absence. Those who have stayed during many hours aboard a wooden vessel, anchored in high seas, listening to the gentle blowing of the sea under the hull, know what I’m talking about. The sounds or their absence, in this immensity’s distance, under or on the waterline, is able to transport us to an unusual field.

As an armor of this sonorous body that I find in Jayro’s text, is the poet’s original craft: to make visible, to foresee an inexistent moviment, to intuit the form in the content, to see in the shadows, to hear in the silence. A Linha da Água Marinha performs this with extreme, singular precision, unconditionally seeking the overall view―what is fundamental for me in the construction of a text.

Of the forty microessays written, twenty-nine are about sounds and eleven are about their absence. Without worrying about the truth.

The sounds are in the vibration of the flying fish’s fins, in the vogal’s secret; we can unveil the mystery through the sound of a breaking stick, by putting a shell close to the era, aware of the musical edge that the row rain makes, spelling names of plants; in the memory of silence’s range that opens up imagining the never executed tenth symphony; in Sherazade’s salivated tongue  that does not stop; in the words that give name to what’s missing; the madness that provokes grunts, listening to the word that doesn’t sound good or to the shadow that speaks; in a fly’s buzz, sensing the sibilated secret, meditating on the canonical language, believing on the promisse of thunders, following the words like cats; in the sound of an stone that kills a man, revealing to the fireman what he just saw, reading a monologue, telling the days of old-age, listening to the sound of the breath on the freezer, perceiving that every oracular phrase is melted wax, reading a clear versicle or the pen’s language, concentrated on reading the whispering lips, searching for the words on darkness, understanding someone that says that doesn’t have a name to be called by.

In absences, Jayro seeks for other senses, besides revealing a little more than the poetic process of his desire to brought words together, caressing them as an experient lover, opening the only way to its transfiguration. On the seventh microessay, the first absence shows up when it enters the field of senses the touch―the hand on the thorns and the centipede, and after, it’s in the lap/sea the rest local when the mystical phallus is lost; the poem sees what we’re not seeing; the unexposed or exposed differ on what we are able to see that wasn’t; on the twentieth third microessay appears the fine and permeable waterline―the book’s title―, which signifies simultaneously a brutal separation of elements and its absolute interaction. Here’s the totality point; dies what was left to die and thou shalt not ever see what I saw; I have never imagine in the darkness the anonymous constructor with other name, called Hiram, turning off the flames with his hat.

This is the path I went through by reading A Linha da Água Marinha. Many others exist; search for yours in http://issuu.com/alinhadaaguamarinha/docs/a_linha_da___gua_marinha.1.

The author dies when a book is born; but also borns a reader.

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