Decapitação e arte sobre a mesa de dissecção

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Judite e Holofernes de Caravaggio

Recentemente o mundo caiu estarrecido quando o famoso arqueólogo sírio Khaled al-Assaad, diretor por 40 anos do parque arqueológico de Palmira, foi decapitado pelo Estado Islâmico.

O motivo da morte: Em um cartaz colocado sobre o corpo de Al Assaad, os jihadistas o acusam de ser um partidário do regime sírio, por tê-lo representado em conferências no exterior junto com “infiéis” e de ser o diretor dos “ídolos” de Palmira. Um motivo que se define entre “político”, “religioso” e “cultural”.

Tenho em meu vocabulário poucas palavras que possam se articular para dar conta em minha mente de uma notícia como essa. Mas algumas perguntas surgem imediatamente como raios sobre o meu pequeno território. E como nossa civilização está construída muito mais sobre perguntas do que sobre respostas vamos a elas.

As palavras: tolerância, hospitalidade, compreensão, fraternidade, alteridade, enfim respeito às diferenças étnicas, religiosas e culturais, nunca foram, de formas tão intensas, defendidas por pessoas simples, anônimas e também tantas vozes internacionais e com grande alcance em nosso planeta. Existe quase um “consenso teórico” se é que podemos chama-lo assim, sobre a incontestabilidade destes temas. Publicamente é quase impossível registrarmos alguém se manifestando, através de meios oficiais ou da grande mídia, a favor de atitudes discriminatórias, preconceituosas ou violentas, principalmente no plano individual. No plano coletivo é crime fazer apologia ao nazismo, por exemplo. Mesmo no micro-espaço das redes sociais estas expressões são combatidas e patrulhadas com muita intensidade e até mesmo com assodamento e algum rigor exacerbado.

Porém, mesmo com todo este “consenso teórico”, com esta conquista civilizatória garantidora do “respeito ao outro”, por que ainda nos deparamos com a decapitação de um homem que viveu toda uma vida somente protegendo e conservando obras de arte – sobre as quais também há consenso sólido relativo à sua importância para a humanidade?

Se o direito à vida ainda é um valor essencial para as sociedades, principalmente no campo religioso, por que um dissenso, nesse caso religioso, e em alguns outros, de fundo cultural ou político ainda justificam um assassinato bárbaro como este?

Por que alguém que discorda de mim merece morrer decapitado em um set de filmagens? Por que dois humanos diferentes sempre têm de se devorar sobre um terreno insólito?

Deixamos para trás o código que pregava “olho por olho, dente por dente”, mas hoje com sete bilhões e quinhentos milhões de humanos sobre o planeta, será que temos proporcionalmente mais homens e mulheres tolerantes do que tínhamos na época de Hamurábi? Mais uma pergunta sem resposta, mas meu otimismo crê que sim.

Qual é a dimensão dos porões individuais e coletivos que ainda devemos iluminar para que não se retroalimentem monstros e não se projetem mais sombras nas paredes frias e úmidas da nossa alma coletiva?

Meu título para este texto refere-se à frase de Lautréamont – “o encontro casual de uma máquina de costura com um guarda-chuva numa  mesa de dissecar cadáveres”. O encontro de dois objetos distintos sobre um plano incomum. Uma formulação surrealista para buscar o que está além da primeira camada do visível, da mais frágil e inocente ideia de realidade.

É possível que para conhecer a alma humana tenhamos que nos afogar no oceano da inconsciência?

 

Beheading and art on the dissection table

 Recently, the world was gone appalled when the famous Syrian archeologist Khaled Al-Assaad, director of the Archeological Park of Palmira for 40 years, was beheaded by the Islamic State.

The cause of the death: in a poster put upon Al-Assaad’s body, jihadists called him a supporter of the Syrian regime, for having it represented in international conferences with “infidels”, and for being the director of the “idols” from Palmira. A cause that is defined among “political”, “religious”, and “cultural”.

In my vocabulary, I have few words that can articulate themselves in my mind to handle news like this. But some questions appear immediately, like rays on my little land. And as our civilization is built much more on questions than answers, let’s check them out.

The words: tolerance, hospitality, comprehension, fraternity, otherness, that is to say, the respect to the ethnical, religious and cultural differences; this was never defended in such intense ways by simple, anonymous persons, and also by so many international and great-appealing voices in our planet. There’s almost a “theoretical consensus” (if we could call that) about the incontestability of these subjects. In public, it’s almost impossible to register anyone’s manifests, through official or great media, in favor of discriminatory, prejudiced, or violent attitudes, especially in the individual plan. In the collective plan, it is a crime to defend Nazism, for example. Even in the micro-space of social media, these expressions are fought and patrolled with a great intensity, and even with hurry and a certain exaggerated rigor.

But, with all this “theoretical consensus”, with this civilizational conquest that maintains the “respect for the other”, why do we still come across the beheading of a man that has lived all his life only to protect and conserve works of art – of which there’s also a solid consensus related to its importance to mankind?

If the right to live is still an essential value for societies, especially in the religious area, why does a dissent – a religious one in this case, and in other cases, of a cultural or political background – still justify a barbarian murder like this? Why does anybody that disagree with me deserves to die beheaded in front of a camera? Why do two different humans have always to devour on a strange territory?

We left behind the code that preached “an eye for an eye, a tooth for a tooth”; but nowadays, with seven point five billions of humans on the planet, do we have proportionally more tolerant men and women than we had in Hammurabi’s times? It’s another question without an answer, but my optimism believes so.

What’s the dimension of the individual and collective basements that we still have to light on for monsters not to feed each other and to not project more shadows on our collective soul’s wet, cold walls?

My title for this text refers to the Lautréamont’s quote: “the casual meet of a sewing machine and an umbrella on a table for bodies’ dissection”. The meet of two distinct objects on an uncommon plan. A surrealist formulation to seek for what’s beyond the visible’s first layer, of the most fragile and innocent idea of reality.

Is it possible that to know the human soul we would have to drown in the ocean of unconsciousness?

Um comentário sobre “Decapitação e arte sobre a mesa de dissecção

  1. Não saberia encontrar um outro adjetivo, que não o bárbaro, para comentar as ações cometidas contra o patrimônio da humanidade. Apagar o registro da própria história é negar a condição humana de sua capacidade de evolução, é negar a própria existência. É destruir a marca da racionalidade que nos distingue de outros animais, filhos de uma mesma origem que chega ao divino quando nosso conhecimento já não alcança tamanha complexidade. Sob meu ponto de vista, é destruir elos que podem explicar que nunca estivemos sozinhos e que de alguma forma interagimos com outros seres de igual ou superior inteligência que nos indicaram um caminho inverso ao da involução que havíamos traçado rumo ao desaparecimento pela falta da razão. É apagar qualquer possibilidade de encontrar respostas de se entender humano.

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