Ella

Ella

Ella (foto Melanie J. NZ)

Ella nasceu onde os seus pais se dissolveram e coagularam, já que todos os nossos processos psicológicos podem ser considerados como metáforas líquidas e químicas da natureza.

Transmitir deliberadamente o que possuímos, uns aos outros, é o que ainda nos mantém no rastro da nossa humanidade. É o poder da vontade se impondo ao afastamento da memória.

Falo do ponto de vista amplo da transmissão da imagem, da cultura, da psique mas, sobretudo da nossa natureza biológica.

Após a fecundação, essa misteriosa fusão nuclear entre o gameta feminino e o masculino, em um átimo, estas duas forças desdobram-se, interligam-se e reúnem histórias passadas, aglutinando incontáveis vidas sobrepostas de gerações em gerações, para após serem lançadas, agora como uma só, em um campo aberto, fértil, carregado de incertezas, onde o caos joga com ligações indeléveis, algumas frágeis, outras indestrutíveis, que chamamos: o futuro.

Futuro: um segundo a nossa frente, um espectro desenhado por essas relações insólitas e definitivas que se constróem todos os dias – quando alguém acrescenta algo marcante a outrem, como um professor ou uma mãe que transmitem as lições, um monge que transmite a paz, ou mesmo quando um carrasco transmite a dor – mas, sem dúvida a transmissão essencial é aquela que, como pais, passamos para um novo corpo, gerado de parte de nosso próprio corpo e de nossa alma.

Assombroso é ver fluir, através de linhas tênues, as marcas físicas, psicológicas e espirituais de um a outro ser. Indizível e imponderável, é sentir em cada gesto, em cada expressão, uma sequencia de vidas, de vozes, de rostos se desdobrando uns sobre outros em uma cadeia irresistível e transformadora da nossa história.

A nova vida que chega é a mesma vida que renasce milhões de vezes em si mesma, é um fogo transformador, é um milagre que escapa à ciência, à filosofia e mesmo à religião. A própria ideia de ancestralidade não é capaz de delimitar completamente as fronteiras deste evento original chamado nascimento, a perpetuação em si mesma dos desejos mais humanos gravitando entre aqueles individuais e coletivos, aquilo que passa em nossa retina em lapsos mínimos de tempo quando vemos nos olhos de nossos filhos ou netos, uma expressão singular, um som inesquecível, um conhecido movimento das mãos, um levantar da sobrancelha.

Ella que acaba de nascer, me parece, sempre foi nossa, desde tempos imemoriais, como tantos ainda virão, e também já são nossos, aguardando apenas um fluxo universal que nos liga inexoravelmente uns aos outros.

O encantamento que Ella gera é fruto dos sonhos mais longínquos despertados em nosso espírito na noite dos tempos.

Nós, os nosso filhos, os filhos dos nossos filhos, temos sempre uma história para ouvir, mas também uma outra importante para contar.

Ella

Ella was born in the point where her parents were dissolved and coagulated since all of our psychological processes can be considered as nature’s liquid and chemical metaphors.

To intentionally transmit to each other what we’ve got is what keeps us still in the path of our humanity. It’s the power of will imposing itself to the memory’s distancing.

I’m talking by the vast point of view of the image’s, culture’s, psyche’s transmission, but, overall, of our biological nature’s transmission.

After the fecundation, this mysterious nuclear fusion between the female’s and the male’s gamete, into one atimo, this two forces unfold, interconnect, and reunite past stories, agglutinating numerous superimposed lives, generations to generations, for being after released, now as one and only, in an open, fertile field, a full of uncertainties one, where chaos plays with indelible connections, some fragile, others unbreakable, which we call the future.

Future: a second ahead us, a spectrum drawn by these unusual and definitive relationships that build themselves every day – when someone adds something remarkable to the others, like a teacher or a mother that gives lessons; a monk that transmits peace; or even a executioner that transmits pain –, but, no doubt about it, the essential transmission is the one that, as parents, we pass to a new body, generated from our own body and our souls.

It’s astonishing to see it flow, through fine lines, the physical marks, the psychological and the spiritual ones to another being. Unspeakable and imponderable is to feel in every gesture, in each expression a sequence of lives, of voices, of faces unfolding upon each other in an irresistible and transforming network of our history.

The new life that arrives is the same life that is reborn a million times in itself; it’s a transforming fire, a miracle that science, philosophy, and even religion can’t handle.  The very idea of ancestrality isn’t able to completely delimit the borders of this original event called birth, the perpetuation of most human desires itself gravitating between those individuals and collectives, that that passes on our retinas in minimum time lapses when we see a singular expression in our sons’ or grandsons’ eyes, an unforgettable sound, a well-known hand movement, a raise of the eyebrow.

It seems to me that Ella is just born and was always ours, since immemorial times, like others that are still to come and are already ours, waiting for just a universal flow that connects us inexorably to each other.

The enchantment that Ella causes is a result of the most distant dreams awakened in our spirits in the night of times.

We, our children, the children of our children, will always have a story to listen to, but also an important one to tell.

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