Umberto Eco e a miopia

Umberto Eco

Umberto Eco

A internet está ocupando, nas cabeças de alguns de nós, um espaço muito maior do que deveria. Trata-se de uma ferramenta poderosa, como também o foi o papel impresso e reproduzido em muitas cópias a partir da xilogravura dos chineses ou através dos tipos de Gutenberg, como foram igualmente as poderosas ondas sonoras do rádio e, sem dúvida, as imagens e sons, que viajam via satélite, das televisões.

Quantas imagens gravadas em xilogravura são ruins, quantas palavras impressas em tipos são inverdades, desnecessárias, ou mesmo idiotices, quantos programas de rádio não serviram para nada ou mesmo atrasaram a vida de pessoas com informações ridículas, falsas ou mentirosas, o que dizer então da televisão que todos os dias despeja toneladas de lixo chamado “informação” dentro de nossas casas.

Umberto Eco critica as novas tecnologias no processo de disseminação de informações com as seguintes palavras: “…as redes sociais dão o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.

Me parece que a receita: Bar, cerveja (no Brasil) e idiotices continua viva, independentemente da internet. Mas Eco vai ainda mais longe, afirmando: “Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”.

O equívoco de Eco é achar que a palavra de um Prêmio Nobel constrói o mundo, mas não a do idiota depois de um vinho em um bar.

Nosso mundo é a média entre a música, a pintura, as imagens, as palavras ruins, medíocres, idiotas e aquelas geniais. Mas não precisamos calar ninguém. Até porque o “idiota da aldeia” conforme a designação do semiológico italiano, em muitos casos é muito mais genial do que muitos dos intelectuais dessa mesma aldeia.

Em 1802 tínhamos um bilhão de pessoas sobre o planeta, em 1961 três bilhões, em 1987 cinco bilhões, já em 2011 chegamos aos sete bilhões e as projeções indicam que em 2026 seremos oito bilhões de pessoas. Primeiro é absurdo achar que, proporcionalmente, tinhamos menos “idiotas” do que temos hoje. Também me parece ridículo achar que nosso mundo será melhor se conseguirmos calar indivíduos que falam através da internet, como falavam em bares mundo afora. Prefiro acreditar que no exercício diário e individual de emitir opinião e ler opiniões contrárias e diversas, aprendamos um pouco mais sobre nosso próprio território, fronteiras e os desconhecidos que nos procuram…mesmo que seja com problemas e opiniões que Eco considera “imbecis”.

Essa obsessão por rejeitar e demonizar a internet é característica das instituições mais conservadoras de nossa sociedade. Estou falando dos militares, das escolas e das igrejas. Esta última, diga-se de passagem, a origem e berço do filólogo italiano Umberto Eco e talvez de sua miopia.

Umberto Eco and the myopia

The internet is occupying, in the heads of some of us, a space much larger than it should. It is a very powerful tool, as it was the paper pressed and reproduced through Chinese’s woodcut, or through Gutenberg’s types, also as powerful as the radio’s sound waves, and, without any doubt, television’s images and sounds that travel via satellite.

How many recorded woodcut images are bad? How many type-pressed words are untrue, unnecessary, or even stupid? How many radio programs were useless or made people’s life back off with ridiculous, false informations, or lies? What is to say, then, of television, that every day throws away tons of garbage called “information” inside our homes?

Umberto Eco criticizes the new technologies in what concerns the dissemination of information with the following words: “the social networks give the right to speak to a ‘legion of stupid people’, which before that spoke only ‘in a bar and after a glass of wine, without damaging the community’”.

Seems to me the recipe “bar, beer (in Brazil) and stupidity” is still alive, independently of the internet. But Eco goes further, affirming: “Commonly, they [the imbeciles] were immediately shut up, but now they have the same right to speak of a Nobel Prize winner”.

Eco’s mistake is to think that the word of a Nobel Prize winner is the one that builds the world, but not the one of the idiots after a wine in a bar.

Our world is the medium between music, painting, images, bad, mediocre, idiot words and those that are brilliant. However, we don’t need to silence anyone. Especially because the “village’s idiot”, as in the Italian semiologic designation, in many cases is much more genius than a few intellectuals of the very village.

In 1802, we had had a billion of people on the planet; in 1961, three billion; in 1987, five billion; and in 2011, we reached the mark of seven billion, and the projections indicate that in 2026 we are going to be eight billion people. First of all, it is absurd to guess that, proportionally, we had less “idiots” than we have today. Also, it seems ridiculous to me to think that our world would be better if we could silence individuals that speak through the internet, as they used to speak in pubs around the world. I’d rather believe that in the daily and individual exercise of emitting opinions and reading contrary and diverse opinions, we could learn a little more about our own territory, borders, and the unknown ones that seek for us… even if they have the problems and opinions that Eco considers “imbeciles”.

This obsession for rejecting and demonizing the internet is a characteristic of the most conservative institutions of our society. I am talking about the military, the schools, and the churches. The last, it has to be said, the origin and the birthplace of the Italian philologist Umberto Eco.

3 comentários sobre “Umberto Eco e a miopia

  1. Não é só Eco que desconfia da internet. Também vale a pena estudar Bauman e a fragmentação do conhecimento que a internet propõe.Em sua Modernidade líquida; Amor líquido e vida para o consumo. veeremos que nós consumidores pouco temos a fazer diante da obsolescência programada dos produtos que nos é imposta.

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  2. Pingback: Ouvintes, leitores, telespectadores, internautas, somos todos idiotas??? | of

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