Waters e Gil

A arte como ferramenta política, como instrumento de luta social ou ideológica já deu demonstrações, em vários momentos históricos (arte na revolução russa, arte panfletária, arte engajada, realismo social, relação entre comunismo e surrealismo, arte religiosa, entre outras) de suas limitações criativas, do estreitamento do posicionamento do artista e sua arte.

Van Gogh afirmava, com muita propriedade, que a arte jamais serviu para matar a fome de alguém. Enfim, a objetividade na arte é sempre redutora.

Mas essa discussão entre Roger Waters e Gilberto Gil (além de outros músicos com apresentações marcadas em solo israelense) não tem seu núcleo na questão: “arte como elemento transformador da realidade”, mas sim em um posicionamento do artista, no caso Waters, que com sua “ausência” busca chamar a atenção para intensa disputa territorial entre israelenses e palestinos, através de uma organização chamada BDS (“boicote, desinvestimento e sanções”) contra a ocupação dos territórios palestinos. Uma proposta semelhante a que transformou Cuba no que é hoje.

As duas posturas me pareceram superficiais, ao menos na forma em que se deram.
Gil diz que apenas deseja levar música à população israelense. Disse textualmente “fomos contratados, e espero que os shows sejam mantidos”. Parece querer dizer que a arte está além das questões políticas, o que não é exatamente uma realidade. Em muitos casos a política exterminou e mutilou, artistas, movimentos culturais e artísticos, por períodos mais ou menos longos. Lembro o que já aconteceu no Afeganistão e agora no Iraque com suas obras milenares sendo destruídas por regimes radicais e fundamentalistas.
Já Waters, que parece estar engajado (não sua arte – ele não seria ingênuo) nesta batalha contra a força israelense, busca com uma participação ativa, como personalidade internacional que é, atrair os olhos do mundo para aquela guerra sem inicio nem fim. Uma postura que deve ser respeitada. Mas seu recurso de convencimento na direção de Gil é frágil: citou o caso dos dois jovens palestinos, que sonhavam se tornar jogadores de futebol, e ao serem atingidos por tiros israelenses nos pés, ficaram impossibilitados, não somente de jogar futebol, mas também de caminhar. Digo que este argumento é muito frágil, já que Roger Waters esteve no Brasil recentemente, apresentando a belíssima ópera Ça Ira no teatro municipal de São Paulo, um país que permite a morte de mais de 54 mil pessoas por ano em homicídios (150 por dia), que não são punidos e atingindo em sua maioria jovens. Waters não deveria jamais se apresentar no Brasil.

Porém, ainda me instiga mais a posição ativa de Waters do que a passiva de Gil.
Mas, sobretudo, me anima o fato de ver discussão pública sobre assuntos importantes e que não podem perder a visibilidade, feita por personagens diversas, não apenas por políticos, militares, diplomatas. Mais pessoas comuns, sejam artistas, médicos sem fronteiras, advogados sem tendências, costureiros sem alinhamento, marceneiros sem preconceito, que além de produzirem seu ofício, mesmo sem engajamento, devem debater questões vitais e urgentes, isso é muito importante. Mas de maneira aprofundada, sem açodamento, sem desejar definir o lado certo ou errado na primeira mirada, sem jogos de palavras, sem frases feitas ou pior, repetidas automaticamente, sem superficialidade.

A questão entre Palestina e Israel é tão complexa, antiga e profunda, que no mínimo exige respeito em sua discussão. Um belo exemplo de trabalho sobre esta realidade está no documentário Promises de Justine Arlin, Carlos Bolado e B.Z. Goldberg, filmado entre os anos de 1995 e 2000, retratando a história de sete crianças israelenses e palestinas, com idades entre 9 e 13 anos. O documentário eu recomendo como um aprofundamento dessa questão humana através do olhar infantil.

We Stand With Shaker (Aamer) Campaign Hand Giant Valentines Card To US Embassy gil_Fotor

Waters and Gil

Art as a political tool, as instrument for ideological or social struggle, has already given demonstrations, in various historic moments (art in the Russian Revolution, pamphleteer art, engaged art, social realism, the relation between communism and surrealism, sacred art, and others) of its creative limitations, of its narrowing position between the artist and his art.

Van Gogh affirmed, with authority, that art was never been able to satisfy anyone’s hunger. Anyway, when it comes to art, objectivity is always reductive.

But this discussion between Roger Waters and Gilberto Gil (among other musicians with scheduled presentations in Israel) isn’t centered in the question: “art as a transforming element of reality”, but in the position of the artist, in this case Waters, that, with his “absence”, seeks to attract attention for the intense territorial dispute between Israeli and Palestinian through an organization called BDS (“boycott, divestment and sanctions”) against the occupation of Palestinian territories. A similar proposal to that that have turned Cuba into what it is now.

Both postures seemed superficials to me, at least in the way they happened.

Gil says that he just wants to take his music to the population of Israel. He said in a text that “we have a contract, and I hope the presentations be kept. It seems he wanted to say that art is beyond political questions, which is not exactly the reality. In most cases, politics have exterminated and mutilated artists, cultural and artistic movements for more or less long periods. I remember what has already happened in Afghanistan, and now in Iraq, with their millennial works being destroyed by radical and fundamentalist regimes.

On the other hand, Waters – that seems to be engaged (not his art – he wouldn’t be naive) in this battle against the Israeli Force –, as the international celebrity he is, seeks to claim, with an active participation, the eyes of the world to that war without start or end. A posture that must be respected. But his convincing effort towards Gil is fragile: he remembered the case of the two young Palestinians that dreamed of being soccer players and when they got shot by the Israeli on the feet and became unable not just to play soccer, but also to walk. I say that this argument is very fragile, since Roger Waters recently has been in Brazil performing the wonderful opera Ça Ira at the City Theater of Sao Paulo, a country that permits the death of more than 54 thousand people a year in homicides (150 a day), which are not punished and the most of it hitting young people. Waters shouldn’t ever perform in Brazil.

And yet, I’m more instigated about the active position of Waters than the passive position of Gil.

But, overall, cheers me up to see the public discussion about important subjects that shouldn’t lose visibility, which is made by various characters, not just politicians, military, diplomats. More common people – be artists, doctors without frontiers, lawyers without tendencies, sewers without alignment, cabinetmakers without preconception – that  besides of producing their own work, even if without engagement, must debate vital and urgent questions; this is very important. But with profundity, without rush, without defining the right and the wrong side at the first look, playing with words, ready phrases – or worst, with automatically repeated phrases –, without superficiality.

The question between Palestine and Israel is so complex, old and profound, that at least must be respected by its discussion. A great example of work about this reality is in the documentary Promises, by Justine Arlin, Carlos Bolado, and B. Z. Goldberg, produced between the years of 1995 and 2000, showing the story of seven Israeli and Palestinian children, with ages between 9 and 13 years old. I recommend the film as a deepening of this human question through the infant’s look.

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